
Entre rios, matas e caminhos de difícil acesso, nasce um dos mais potentes retratos do empreendedorismo brasileiro. No Alto Solimões, extremo do Amazonas, o saber artesanal do povo Ticuna transforma matéria-prima da floresta em cultura, identidade e negócio. É nesse território que o Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae) aprofunda sua missão de conhecer, reconhecer e impulsionar os pequenos que, mesmo distantes dos grandes centros, sustentam economias inteiras e preservam modos de vida.
Uma imersão no Brasil real. É assim que pode ser definida a presença do Sebrae no município de Benjamin Constant, a 1.116 km da capital do Amazonas, e predominantemente indígena, localizado na tríplice fronteira entre Brasil, Colômbia e Peru. Segundo dados do Instituto de Desenvolvimento Agropecuário e Florestal Sustentável do Amazonas (Idam), o município reúne 66 comunidades rurais e mais de 48 mil habitantes, sendo que cerca de 90% dessas comunidades têm no artesanato sua principal fonte de renda.
A visita contou com o acompanhamento do Sebrae Amazonas e apoio da Prefeitura Municipal de Benjamin Constant, dentro de uma agenda estratégica que une o projeto nacional Brasilidades ao Cidade Empreendedora, desenvolvido no estado, que tem fortalecido setores econômicos locais, com destaque para o artesanato como vocação produtiva do território.
Na comunidade Bom Caminho, a equipe conheceu de perto o trabalho da AMATU (Associação das Mulheres Artesãs Ticunas), composta por cerca de 200 mulheres formalizadas que transformam saberes ancestrais em produtos com valor de mercado, ao lado de outros artesãos locais que também integram essa cadeia produtiva. Mais do que peças artesanais, o que se vê é um modelo de negócio a pleno vapor, que envolve homens e mulheres de todas as idades, estruturado a partir da cultura, da floresta e da resistência, um verdadeiro polo baseado na sociobioeconomia.
O processo começa muito antes da confecção. A extração da matéria-prima, como o arumã, fibra essencial para a produção de cestos, luminárias e biojoias, exige longas jornadas na mata. Para chegar até ela, os artesãos percorrem grandes distâncias, enfrentam o peso do material, as variações do clima e os riscos naturais da floresta. Nem tudo o que é coletado pode ser aproveitado, o que torna o trabalho ainda mais exigente e reforça o valor de cada peça finalizada.
Além do desafio da extração, há também a preocupação com a reposição da matéria-prima, evidenciando uma relação direta entre produção e preservação. O manejo sustentável do arumã e de outras matérias revela um conhecimento tradicional que atravessa gerações e os posiciona como verdadeiros guardiões da floresta.
“Quando alguém adquire um produto desses, não está comprando apenas artesanato. Está contribuindo diretamente com a preservação da floresta e com a continuidade de um modelo de vida. Essa é a lógica da sociobioeconomia que orienta a atuação do Sebrae nesses territórios.” Lilian Sílvia Simões, gestora do Projeto de Artesanato do Sebrae Amazonas.
Essa atuação não é recente. Há mais de uma década, o Sebrae Amazonas trabalha junto ao povo Ticuna, estruturando o segmento por meio de capacitação, gestão, inovação e acesso a mercado. A identificação de Benjamin Constant como polo do artesanato veio a partir de mapeamentos realizados ainda no ciclo da Copa do Mundo de 2014, quando o programa de artesanato ganhou força nacional.













