A professora Manuela Berto Pucca, da Faculdade de Ciências Farmacêuticas (FCF) da Unesp, em Araraquara, liderou o grupo que fez a descoberta. Durante as coletas, a equipe notou exemplares com características fora do padrão: coloração diferente, variações no tamanho do corpo e granulação distinta nas pinças. Essas pistas levantaram a suspeita de que os pesquisadores tinham encontrado espécies ainda não descritas. E as suspeitas viraram trabalho científico publicado na revista Diversity.
A descoberta amplia o conhecimento sobre a biodiversidade amazônica e também abre uma porta concreta: o veneno desses escorpiões pode conter moléculas com potencial para a indústria farmacêutica. “Os achados demonstram o quanto a floresta Amazônica, especialmente em estados como Roraima, ainda é pouco explorada cientificamente. Se encontramos duas espécies inéditas em uma única região que investigamos, quantas outras ainda existem na região e não conhecemos?”, questiona Pucca.
O trabalho marca a estreia do projeto AT-Biota — Desvendando a Riqueza Oculta de Aracnídeos e Triatomíneos em Regiões Inexploradas dos Biomas Brasileiros, coordenado pela própria pesquisadora e financiado pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp).
Uma região pouco explorada e de grande potencial
As duas espécies vivem em inselbergs, formações rochosas isoladas que se erguem em meio à floresta e funcionam como verdadeiras ilhas ecológicas. O isolamento prolongado dessas áreas, que se mantém por milhares de anos, favorece o surgimento de espécies exclusivas, adaptadas a condições ambientais bem específicas. O que explica por que ninguém havia encontrado esses escorpiões antes.
A descoberta de Cayooca puchus chama ainda mais atenção porque o gênero Cayooca reúne pouquíssimos representantes conhecidos pela ciência, o que torna o achado raro mesmo para os padrões da taxonomia.
As novas espécies também impõem desafios para quem quer estudá-las de perto. Segundo Pucca, os animais são extremamente sensíveis a mudanças ambientais. Mesmo quando os pesquisadores tentam recriar em laboratório a temperatura e a umidade da floresta, alguns exemplares não resistem por muito tempo em cativeiro. “São animais altamente especializados e adaptados a um ambiente muito específico. Mesmo quando tentamos reproduzir essas condições em laboratório, nem sempre conseguimos garantir sua sobrevivência”, explica a docente.
Anos de expedições até a confirmação
Confirmar que os exemplares pertenciam a espécies novas exigiu um trabalho de quase uma década. As primeiras expedições à região aconteceram em 2016, quando Pucca ainda integrava o quadro da Universidade Federal de Roraima (UFRR). De lá para cá, as equipes retornaram ao local diversas vezes, em diferentes épocas do ano, para coletar machos, fêmeas, jovens e adultos. Um esforço necessário para reunir evidências suficientes e comparar os animais com todas as espécies já catalogadas.
O professor André Lira, da Universidade Federal Rural de Pernambuco (UFPE), conduziu as análises detalhadas que sustentaram a descrição das novas espécies. Outros dois especialistas, Antônio D. Brescovit, do Instituto Butantan, e Edmundo González-Santillán, da Universidade Nacional Autônoma do México (UNAM), validaram os resultados antes da publicação. “A descrição de novos exemplares exige um conjunto robusto de evidências e a validação por diferentes pesquisadores. É um trabalho minucioso que envolve análises morfológicas detalhadas”, afirma Pucca.













