
A rotina de mais de mil moradores da comunidade indígena urbana Fortaleza Kokama, no bairro Santa Etelvina, zona Norte de Manaus, mudou radicalmente no mês de abril deste ano. Formada por famílias de seis etnias diferentes, a comunidade passou a contar com um serviço essencial, básico, mas que ainda parecia distante da realidade dos moradores desde a sua criação: água tratada. As ligações improvisadas e as dificuldades diárias para ter água em atividades básicas deram lugar a um cenário mais digno e saudável, como descreve a cacique Geisiany Pimenta.
“Nós mesmos fazíamos as ligações, mas como era um material frágil, sempre quebrava e a água acabava sendo poluída. As pessoas não tinham sequer um chuveiro, porque a água precisava ser armazenada em baldes. Hoje, temos água limpa 24 horas por dia. Podemos tomar banho de chuveiro, abrir uma torneira para lavar louça, fazer comida. Isso tudo é dignidade para nossa gente.”
A situação enfrentada por anos pela comunidade Kokama pode parecer contraditória quando se observa que Manaus é uma metrópole no coração da Amazônia, cercada de recursos naturais e detentora do quinto maior PIB entre as capitais estaduais brasileiras, segundo o IBGE. No entanto, a forma como a cidade se expandiu desde a criação da Zona Franca de Manaus, em 1967, explica por que o “básico” ainda não chegou a todos os cantos da capital amazonense. A cidade saltou de cerca de 300 mil moradores nos anos 1960 para mais de 2,3 milhões atualmente. É uma das expansões urbanas mais aceleradas do país. Segundo o Censo 2022 do IBGE, Manaus foi a grande capital brasileira que mais cresceu populacionalmente entre 2010 e 2022, com aumento de 14,5% no período. Essa expansão trouxe progresso e riqueza, mas também gerou desafios: dados do IBGE também indicam que mais de 55% da população vive em áreas vulneráveis, cenário que ampliou o esforço necessário para garantir acesso universal ao saneamento básico.
Este processo vem sendo enfrentado desde junho de 2018, quando a concessionária Águas de Manaus, uma empresa Aegea, assumiu os serviços de água e esgoto da capital. A população vulnerável tornou-se foco central da companhia, e uma série de programas foi implantada para garantir água e esgoto tratados e tarifas adequadas à realidade de cada comunidade, beco, rip-rap ou palafita atendida.
Mais de R$ 2,3 bilhões foram investidos pela concessionária no saneamento da cidade em quase oito anos de atuação. Somente em áreas vulneráveis, mais de 200 mil moradores passaram a ter acesso à água tratada no período. A concessionária foi bairro a bairro, mapeando áreas desabastecidas e desenvolvendo soluções geograficamente adaptadas para levar água 24 horas por dia, com a pressão correta, a becos, palafitas, escadões, margens de igarapés e cenários similares.
Em 2023, Manaus alcançou a universalização do abastecimento de água. A dona de casa Noemea Maia mora na comunidade João Paulo, no bairro Jorge Teixeira, e acompanhou essa mudança de perto. “Antes, a vida era muito difícil. A gente sabia que a água da cacimba não era boa, mas era o que tinha. Minhas filhas chegaram a faltar aula porque estavam doentes, e eu sabia que era por causa da qualidade da água. Desde que a água encanada chegou, nossa vida melhorou em todos os aspectos”, afirma.
Os resultados já apresentam impactos positivos na saúde. Dados da Fundação de Vigilância em Saúde Dra. Rosemary Costa Pinto (FVS-RCP) apontam redução nos casos de hepatite A e diarreia entre 2018 e 2024, doenças diretamente ligadas à qualidade da água consumida.
Novas comunidades beneficiadas
Manaus mantém um dos maiores ritmos de crescimento urbano entre as capitais brasileiras. Para preservar os índices de universalização do abastecimento, a concessionária lançou neste ano o programa “+Águas”, que concentra esforços para levar água a áreas de expansão da cidade recentemente regularizadas. Até 2029, o programa prevê investimentos próximos a R$ 100 milhões em 30 comunidades, beneficiando mais de 180 mil pessoas com água regular nas torneiras.













