Flávio Bolsonaro - Foto: Reprodução / Youtube / Conversa Timeline

A estratégia do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) para manter o apoio do eleitorado do agronegócio na corrida presidencial é estimular a rejeição do setor ao PT e usar as dívidas que produtores rurais acumularam no governo Lula, segundo relataram integrantes de sua pré-campanha.

Flávio foi aplaudido na primeira fala usando esta estratégia. Ele participou da abertura de uma tradicional feira agrícola em Campo Grande (MS) na última quinta-feira.

O senador criticou o presidente Lula (PT) antes mesmo de o evento começar. Ainda na porta do salão que receberia a cerimônia de abertura da feira, ele falou que o campo vai retomar os tempos áureos, caso seja eleito.

As críticas se intensificaram quando o microfone chegou às mãos de Flávio. O senador declarou que o governo Lula persegue o produtor. Acrescentou que o PT tem raiva do agro e é contrário à propriedade privada —não há evidências que embasem as acusações. Ele também reforçou parceria de longa data do partido com o MST (Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra), dizendo que o PT protege a entidade.

Esta linha de discurso alia duas diretrizes preparadas pela equipe da pré-campanha. Além de incentivar a rejeição ao presidente Lula (PT), a forma como o senador apresenta os argumentos aborda o tópico segurança jurídica.

O pré-candidato vincula ocupações do MST ao PT e adiciona o tema marco temporal. Os agricultores são contra demarcações de terras indígenas. Ao falar em segurança jurídica, o adversário de Lula afirma que concorda com esse entendimento e que, se eleito, vai trabalhar para somente as demarcações anteriores a 1993 serem válidas.

Em dezembro, a Justiça reafirmou a nulidade do marco temporal. Os ministros do STF consideraram inconstitucional estabelecer uma data limite para ocupação de terras por indígenas. Restrições a demarcações foram derrubadas.

Enredo que mira apoio do agro foi montando ouvindo a bancada ruralista. A família Bolsonaro sempre teve bom relacionado com parlamentares que representam o agro. Ao ser escolhido como pré-candidato, Flávio recebeu sugestões de deputados e senadores ligados ao setor.

Agropecuária – Foto: Jaelson Lucas / AEN-PR

O senador pretende desta forma manter a vantagem da direita sobre Lula nos estados agrícolas do Centro-Oeste. O petista perdeu para Jair Bolsonaro em 2022 nos quatro estados da região. Nas eleições municipais de 2024, o PT não fez um prefeito sequer em Mato Grosso e Mato Grosso do Sul.

As queixas sobre o endividamento de produtores rurais levaram à inclusão do tema nos discursos. A estratégia montada pela equipe do senador contém duas linhas sobre temas econômicos:

  • A primeira é dizer que os juros são altos porque Lula gasta muito. Com esse discurso, Flávio repete reclamações de economistas e empresários sobre o crescimento da dívida pública por falta de equilíbrio fiscal.

  • A segunda é facilitar o pagamento de dívidas com condições favoráveis.

A inadimplência no campo chegou a prejudicar o balanço do Banco do Brasil. A instituição que faz empréstimos para produtores viu suas ações caírem por causa do volume grande de calotes.

Segundo interlocutores, Flávio Bolsonaro pregará ao longo da campanha que vai manter as contas em dia, o que resultaria na redução dos juros. Esse argumento deve ser repetido a empresários, banqueiros e comerciantes e será acompanhado da acusação de que Lula é um governo gastador e que cria impostos.

Flávio não explica, contudo, como ajudará o agro com o pagamento das dívidas. A promessa é vaga e não é apontado se haverá criação de uma linha de crédito ou aumento do prazo para quitar os débitos. Também não há cálculos sobre o custo de eventual socorro aos cofres públicos.

Misturando ideologia e interesse

A estratégia de Flávio Bolsonaro trata da questão indígena para além do marco temporal. O fim das remarcações é caro ao produtor rural. A estratégia pensada adiciona um componente ideológico.

O pré-candidato já defendeu na agenda em Campo Grande que tribos possam explorar suas terras. Ele falou em plantar, criar gado, explorar minérios e até na abertura de empreendimentos turísticos.

A menção agrada ao militante bolsonarista raiz. Flávio planeja uma campanha voltada para o eleitor de centro. Acenos pontuais, principalmente quanto à segurança pública, estão programados, no entanto, para não perder o voto radical. A questão indígena ajuda nesta tarefa.

O presidente Lula e a ministra do Meio Ambiente, Marina Silva – Foto: Fabio Rodrigues- Pozzebom / Agência Brasil

Possível reação de ambientalistas é vista como favorável. A eventual reclamação de ONGs, artistas e expoentes da esquerda colabora com o esforço do pré-candidato em manter o bolsonarista raiz.

Por fim, a equipe do senador o orientou a falar em infraestrutura. O frete é um dos componentes do preço dos produtos rurais, e o pré-candidato deve prometer melhorias para tornar o agro brasileiro mais competitivo.

Elogios ao setor também farão parte do pacote estratégico. O senador chegou a Campo Grande usando uma camiseta onde se lia: “O agro é top”.

*Com informações de Uol