Após semanas de estranhamento entre o Vaticano e o governo dos EUA, o presidente Donald Trump passou a direcionar ataques diretos ao papa Leão 14, num episódio que remete à tensão de uma década atrás entre a Casa Branca e a Santa Sé durante o primeiro governo do republicano e o papado de Francisco.
No domingo (12/04), Trump chamou Leão de “fraco” e “terrível” e disse que não quer um “papa que critica o presidente dos EUA”.
“Não tenho medo do governo Trump”, reagiu, por sua vez, o papa Leão 14 nesta segunda-feira (13/04).
Esse foi o ataque mais explícito de Trump ao papa desde que o americano Robert Prevost foi eleito papa, em maio do ano 2025.
Na raiz dos ataques de Trump aparentemente estão as críticas do pontífice à guerra no Irã, iniciada pelos EUA e Israel.
Em 29 de março, durante a missa do Domingo de Ramos, Leão 14 afirmou, sem mencionar nomes, que condenava o uso do cristianismo como justificativa para a guerra contra o regime islâmico, como fizeram alguns membros do governo liderado por Donald Trump e muitos de seus apoiadores mais fervorosos.
“Este é o nosso Deus: Jesus, rei da paz, que rejeita a guerra, a quem ninguém pode usar para justificar a guerra… [Deus] não ouve as orações daqueles que fazem guerra, mas as rejeita, ao dizer que ‘mesmo que multipliquem as suas orações, eu não as ouvirei: as suas mãos estão cheias de sangue'”, declarou durante o sermão.
No último sábado, ele se referiu mais diretamente à guerra deflagrada por EUA e Israel no Irã, denunciando o “horror e a desumanidade” e implorando aos líderes que buscassem a diplomacia.

“Basta de idolatria, do ego e do dinheiro”, disse o pontífice. “Basta de demonstração de poder; basta de guerra.” Esse parece ter sido o comentário que provocou o mais recente ataque de Trump em sua rede social Truth Social.
Papa “liberal demais”, diz Trump
O republicano escreveu que Leão 14 era “fraco com a criminalidade e terrível para a política externa”, e insinuou que ele teria sido eleito o primeiro papa americano unicamente para lidar com Trump. O presidente também disse que o pontífice não estava “fazendo um bom trabalho” e que “ele é uma pessoa muito liberal” que deveria “parar de ceder à esquerda radical”.
“Não quero um papa que ache que é ok o Irã ter uma arma nuclear. Não quero um papa que pense que é terrível que os EUA ataquem a Venezuela”, disse Trump.
No mesmo dia, Trump publicou na plataforma Truth Social uma imagem de inteligência artificial que que o retrata como uma figura semelhante a Jesus. A publicação gerou críticas até mesmo de membros da direita cristã dos EUA, com alguns afirmando que se tratava de uma blasfémia. Horas depois, a publcação sumiu das contas de Trump.
Papa diz que não quer entrar em debate com Trump
Nesta segunda-feira, durante um voo rumo a Argel, onde dará início a uma viagem de quatro dias pela África, Leão 14 disse que suas declarações não tinham caráter político. “O que eu digo não pretende ser um ataque a ninguém”, esclareceu.
“Não sou um político, não quero entrar em debate com ele”, afirmou, se referindo a Trump. “Não acho que a mensagem do Evangelho deva ser abusada como alguns estão fazendo. Vou continuar a falar forte contra a guerra, buscando promover a paz, o diálogo e o multilateralismo entre os Estados para encontrar soluções.”
“Muitos estão sofrendo hoje, muitos inocentes foram mortos e penso que alguém deve se levantar e dizer que existe um caminho melhor”, disse o papa. “Convido todas as pessoas a buscarem maneiras de construir pontes de paz e reconciliação, a buscarem maneiras de evitar a guerra sempre que possível.”
Ao ser questionado sobre as críticas de Trump aos seus comentários, ele disse não temer o governo do republicano e afirmou aos jornalistas que o acompanham em sua viagem ao continente africano que “não se furtará a anunciar a mensagem do Evangelho”.
“A mensagem do Evangelho é muito clara: ‘bem-aventurados os pacificadores’.”














