Pessoas caminham em direção à fronteira com o Marrocos, deixando a Espanha, em meio a travessias em massa do Marrocos para Ceuta - Foto: Jon Nazca / Reuters

Ceuta, um território espanhol no norte da África, virou o centro de uma nova crise migratória após a entrada irregular de dezenas de milhares de pessoas vindas do Marrocos.

Espanha estima que cerca de 50 mil migrantes entraram em Ceuta em um dia. O governo espanhol citou números reportados por agências e jornais, enquanto o presidente do território, Juan Jesús Vivas, falou em 60 mil; o Departamento de Segurança Nacional chegou a divulgar 49 mil, mas apagou a publicação, segundo a Reuters. Cerca de 69.500 migrantes estão retornando ao Marrocos vindos de Ceuta, onde barreiras de contenção começaram a ser instaladas.

Travessias ocorreram principalmente pelo mar, contornando a passagem terrestre. Imagens mostraram pessoas nadando a partir do lado marroquino, usando boias e outros objetos de flutuação, e a Guarda Civil disse que a entrada aconteceu ‘em massa pelo mar’ pelo quebra-mar de Tarajal.

O fluxo já deixou dezenas de mortos, e as buscas seguem perto da fronteira. As autoridades espanholas relataram mortes durante a travessia, e equipes de mergulhadores atuam na região para localizar vítimas.

Mais de 69 mil pessoas já voltaram ao Marrocos. O Ministério do Interior marroquino afirmou que o retorno pode chegar a cerca de 150 pessoas por minuto, e muitos desistiram após passarem a noite ao relento e concluírem que não conseguiriam regularizar a situação.

O retorno também ocorreu por relatos de hostilidade e superlotação na cidade. O jornal ‘El País’ relatou que parte dos migrantes decidiu voltar por conta própria após maus-tratos de moradores, que jogaram pedras e fizeram ameaças, ou por ‘ter gente demais’ em Ceuta.

Por que Ceuta virou rota e o que torna o lugar tão sensível

Ceuta é uma cidade autônoma da Espanha em território africano e integra a União Europeia. Ao lado de Melilla, é uma das únicas fronteiras terrestres entre a Europa e a África, o que transforma o enclave em porta de entrada para quem tenta chegar ao continente europeu.

Marrocos não reconhece oficialmente a soberania espanhola sobre Ceuta e Melilla. O governo marroquino costuma tratar as duas cidades como áreas ocupadas, e a região é descrita como foco recorrente de tensão diplomática.

A crise atual ocorre após decisão do Supremo Tribunal da Espanha sobre devoluções imediatas. Em 8 de julho, a corte decidiu que migrantes que chegam por via marítima não podem ser devolvidos imediatamente pela fronteira, como ocorre em alguns casos de travessia terrestre; Pedro Sánchez disse que ‘máfias do tráfico humano’ fizeram uma ‘interpretação tendenciosa’ da decisão.

O sindicato da Polícia Nacional (Jupol) acusou ‘passividade absoluta’ das autoridades marroquinas. Em comunicado, a entidade disse que a falta de ação para conter as saídas em direção ao território espanhol sobrecarrega a Polícia Nacional e faz a situação se repetir periodicamente.

Impacto na Europa e reação de outros países

A Itália suspendeu a livre circulação com a Espanha e restabeleceu controles. O governo italiano anunciou o fechamento temporário das fronteiras aéreas e marítimas com a Espanha e determinou inspeções obrigatórias para passageiros que cheguem à Itália vindos do território espanhol.

O governo italiano citou o Acordo de Schengen para justificar a medida. O tratado permite restabelecer controles em situações consideradas ameaça à ordem pública ou à segurança interna, e a primeira-ministra Giorgia Meloni afirmou que a suspensão busca ‘salvaguardar a segurança nacional’.

Como é Ceuta

Ceuta tem cerca de 18,5km² e pouco mais de 83 mil habitantes. O território reúne comunidades cristãs, muçulmanas, judaicas e hindus, com igrejas, mesquitas, sinagoga e templo hindu espalhados pela cidade.

As comunidades cristã e muçulmana são as maiores e moldam a vida cotidiana. Celebrações como Semana Santa, o fim do Ramadã e o Eid al-Adha fazem parte do calendário local, e a cidade também registra festividades judaicas e hindus, como Hanukkah e Diwali.

*Com informações de Uol