A Nasa anunciou nesta terça-feira (9), em uma entrevista coletiva realizada no Centro Espacial Johnson, em Houston (Estados Unidos), os quatro astronautas que vão formar a tripulação da Artemis 3, missão preparatória para uma futura alunissagem.
A missão será conduzida por Randy Bresnik (comandante), Luca Parmitano (piloto), Andre Douglas (especialista de missão) e Frank Rubio (especialista de missão). Ela vai se desenrolar por inteiro em órbita terrestre baixa.
Bresnik é veterano na Nasa, tendo se juntado à agência em 2004. Ele participou de duas expedições à Estação Espacial Internacional (ISS, na sigla em inglês) e voou a bordo das missões STS-129, dos antigos ônibus espaciais americanos, e da missão Soyuz MS-05.
Parmitano é astronauta da ESA, a Agência Espacial Europeia, e o único não americano na missão. Ele foi o primeiro comandante italiano da ISS.
Rubio é outro veterano, com o recorde de voo espacial mais longo realizado por um americano (371 dias) e duas expedições realizadas à ISS. Por fim, Douglas é um novato na Nasa, tendo se juntado à agência em 2021 e fará sua primeira missão espacial.
O astronauta reserva selecionado para a missão é o americano Bob Heintz, veterano de duas expedições à Estação Espacial Internacional, caso haja alguma necessidade de substituição.
Depois que os astronautas forem lançados em uma cápsula Orion impulsionada por um foguete SLS, eles manobrarão o veículo para encontrar e acoplar com módulos lunares desenvolvidos pela iniciativa privada. Os dois em desenvolvimento são o Starship, da SpaceX, e o Blue Moon Mark 2, da Blue Origin.
Pelo cronograma da Nasa, a missão deve ser realizada no ano que vem, abrindo caminho para o primeiro pouso lunar tripulado do programa em 2028. Essa nova configuração da Artemis 3, como um teste de ínterim, é uma novidade recente, instituída depois que Jared Isaacman assumiu como administrador da Nasa, no ano passado. A ideia é que a agência tenha uma cadência de voos maior a fim de desenvolver a “memória muscular” de realizar missões além da órbita terrestre baixa com o SLS.
A Artemis 3 será apenas o terceiro voo do superfoguete desenvolvido pela Nasa. O primeiro foi em 2022, com a missão não tripulada Artemis 1, e o segundo em abril deste ano, com a histórica Artemis 2 —a primeira a levar humanos em uma volta ao redor da Lua neste século.
A missão
Jeremy Parsons, do escritório do programa Lua a Marte (que abarca Artemis e além), apresentou durante o evento uma noção de como deve se desenrolar a missão, que exigirá diversos lançamentos coordenados e controlados por diferentes organizações.
Ela começará com o lançamento não tripulado do módulo lunar Blue Moon Mark 2, da Blue Origin. A escolha vem do fato de ele ser projetado para passar até 90 dias no espaço, abrindo margem para os lançamentos subsequentes. O foguete a lançá-lo ao espaço será o New Glenn, da mesma companhia.
Em seguida, voará o SLS com a Orion e os quatro astronautas. A cápsula então se encontrará com o Blue Moon e realizará a acoplagem. A tripulação embarcará no módulo lunar e conduzirá manobras com ele, tanto quanto possível, antes de retornar à Orion e desacoplar.
Nesse meio tempo, a SpaceX terá lançado seu módulo Starship, que será em seguida visitado pela Orion, que se acoplará a ele, antes de retornar à Terra. “Esperamos que a missão dure cerca de duas semanas”, disse Parsons, indicando que o objetivo dos trabalhos será realizar testes em condições espaciais e minimizar riscos para a alunissagem, que viria na Artemis 4.
Também foram chamados a falar John Kalaris, da Blue Origin, e Jessica Jensen, da SpaceX, fornecendo atualizações sobre os dois projetos de módulo lunar.
Kalaris reforçou que, a despeito da explosão recente do New Glenn na plataforma 36A, na Flórida, os trabalhos estão avançando depressa —com apoio da Nasa— para recondicionar a infraestrutura de solo e viabilizar o lançamento do Blue Moon Mark 1, módulo não tripulado, ainda neste ano. Ele está listado como a missão Moon Base 1 da Nasa.
Para 2028, a Blue Origin espera demonstrar um pouso não tripulado do Mark 2, antes que possa realizar a alunissagem com astronautas, ainda naquele ano —mostrando a disposição da empresa para ser a escolhida para a histórica missão Artemis 4, do primeiro pouso.
Kalaris disse que o Mark 2 a ser usado na Artemis 3 já está em processo de fabricação e estará pronto em 2027 —ninguém, da Nasa, da Blue Origin ou da SpaceX, foi mais específico sobre a data exata da missão, exceto pelo fato de que deve acontecer no ano que vem.
Jensen, por sua vez, defendeu o peixe da SpaceX, destacando o primeiro teste do Starship V3, no 12º voo integrado do veículo, e indicou que a empresa pretende demonstrar reabastecimento em órbita ainda neste ano.
Para a Artemis 3, de 2027, a representante da companhia destacou a herança tecnológica da SpaceX com sua cápsula tripulada Crew Dragon e indicou que o Starship seria equipado com uma porta de acoplagem igual à do veículo que há anos transporta astronautas para a Estação Espacial Internacional.
Indo além, Jensen também deu um detalhe interessante sobre a arquitetura pensada para a Artemis 4 caso seja conduzida com o Starship. A ideia seria acoplar a Orion com ele já em órbita terrestre baixa —como será feito na Artemis 3—, e usar a propulsão do próprio Starship para impulsionar a cápsula numa injeção translunar, colocando-a numa órbita lunar baixa, de onde o procedimento de pouso e retorno exigiria muito menos combustível —e muito menos reabastecimento orbital.
A solução também teria a vantagem, não mencionada, de dispensar o estágio superior do SLS, o que atualmente é um dos dramas da Nasa: a agência optou por fazer a Artemis 3 em órbita terrestre baixa justamente para economizar o último segundo estágio disponível para o foguete, reservando-o para a missão Artemis 4.
Arredondando a apresentação, Nicky Fox, administradora associada de ciência da agência, destacou os objetivos científicos da Artemis 3. Trata-se de uma missão tecnológica em primeiro lugar, mas a agência vê oportunidades para estudar a atmosfera terrestre e a interação da Orion com o ambiente espacial. Essas observações ainda estão na fase inicial de planejamento.
Isaacman prometeu updates mais constantes e enumerou diversas atividades da agência, mostrando que a Nasa espera capturar a imaginação do mundo não só com suas realizações, mas com a apresentação de seus planos com pompa e circunstância. De fato, é um elemento que falta à concorrência chinesa, em geral muito discreta e circunspecta no que diz respeito a seu programa lunar. Por lá, os avanços vêm quase como surpresas. Resta saber se conseguirão mais uma vez surpreender e bater os Estados Unidos na corrida para a Lua.
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