Cidade amanheceu com níveis “péssimos” de poluição, enquanto documentos do Ministério do Meio Ambiente mostram que Manaus não aderiu ao União com Municípios, programa que oferece recursos, equipamentos e estrutura para prevenção e monitoramento ambiental - Foto: Assessoria

Manaus amanheceu nesta quarta-feira, 23 de setembro, debaixo da pior camada de fumaça registrada na cidade em 2026. Nas primeiras horas do dia, sensores do Sistema Eletrônico de Vigilância Ambiental, o Selva, da Universidade do Estado do Amazonas, registraram concentrações de material particulado fino, PM2,5, muito acima da faixa classificada como “péssima”. Às 5h15, o Distrito Industrial I chegou a 587,9 µg/m³; mais tarde, diferentes pontos da cidade continuavam apresentando valores superiores a 200 µg/m³.

A gravidade do episódio foi reconhecida pela própria Prefeitura de Manaus. Em nota divulgada às 8h32, a administração municipal informou concentração média de 188,5 µg/m³ de PM2,5, classificada oficialmente como “péssima”, e atribuiu a fumaça a queimadas em diferentes regiões da Amazônia, sobretudo na Região Metropolitana de Manaus e no leste do Amazonas.

O que torna o quadro ainda mais relevante do ponto de vista da gestão ambiental é um dado oficial do Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima: Manaus foi o único entre os dez municípios prioritários do Amazonas que não formalizou adesão ao Programa União com Municípios pela Redução do Desmatamento e Incêndios Florestais. A informação consta de resposta do MMA ao Requerimento de Informação nº 6.638/2025, apresentado na Câmara dos Deputados pelo deputado federal Amom Mandel.

Segundo o Ministério, nove municípios amazonenses aderiram: Apuí, Boca do Acre, Canutama, Humaitá, Itapiranga, Lábrea, Maués, Manicoré e Novo Aripuanã. Manaus ficou de fora.  A consequência da não adesão não se limita a uma assinatura em papel. O programa federal foi criado justamente para fortalecer os municípios no monitoramento, prevenção e controle do desmatamento e da degradação florestal, com estrutura técnica, equipamentos e recursos financeiros. O Governo Federal informou que os municípios que aderem recebem inicialmente cerca de R$ 700 mil para estruturar escritórios de governança ambiental, destinados ao monitoramento de desmatamento e incêndios. Há ainda investimentos adicionais vinculados aos resultados de redução do desmatamento.

Isso significa que o valor de R$ 700 mil não representa o limite dos recursos que Manaus poderia acessar. É o aporte inicial documentado. O valor total poderia passar de R$ 3 milhões só para a capital do Amazonas. O Programa União com Municípios trabalha com uma carteira muito mais ampla de investimentos. Em 2025, o MMA informava R$ 785 milhões para os municípios prioritários, provenientes do Fundo Amazônia e do Projeto Floresta+ Amazônia; em 2026, o BNDES já apresentava o conjunto de iniciativas do programa na ordem de R$ 815 milhões.

Além do dinheiro, os municípios participantes recebem equipamentos, softwares, veículos, capacitação e assistência técnica para fortalecer suas estruturas ambientais. O programa também prevê regularização ambiental e fundiária, recuperação da vegetação e apoio a agricultores familiares.

E Manaus teve uma nova oportunidade. Em julho deste ano, o Ministério do Meio Ambiente abriu o terceiro ciclo de adesões e manteve a capital amazonense na lista dos municípios prioritários aptos a participar. O prazo daquele ciclo foi de 1º a 31 de julho de 2026, período em que Renato Júnior já era prefeito. A oportunidade foi perdida outra vez. Diante de um problema ambiental recorrente e regional, Manaus se recusou a integrar uma estrutura de cooperação criada justamente para ampliar monitoramento, prevenção, equipamentos e capacidade de resposta municipal.

A situação produz um contraste objetivo: enquanto a população acorda respirando ar classificado como péssimo e a própria Prefeitura reconhece a presença de fumaça de queimadas sobre a cidade, Manaus permanece sem adesão comprovada a uma das principais políticas federais desenhadas especificamente para reforçar a capacidade dos municípios amazônicos de enfrentar desmatamento e incêndios florestais.

Enquanto Manaus ficou fora de uma política federal criada para fortalecer a prevenção e o enfrentamento aos incêndios, recursos de emendas parlamentares já demonstraram que era possível reforçar diretamente quem combate o fogo. Em 2024, Amom Mandel (Republicanos-AM) destinou R$ 581,8 mil ao Ibama para o PrevFogo, aplicados na compra de equipamentos operacionais e de proteção para brigadistas. Naquela ocasião, o deputado foi o único parlamentar do Amazonas a direcionar emenda para o combate aos incêndios e o único deputado federal a enviar recursos diretamente ao PrevFogo com essa finalidade específica.

A destinação não ficou restrita àquele episódio. No Orçamento de 2026, o Portal da Câmara registra mais R$ 400 mil autorizados em emenda de Amom ao Ibama para a ação “Prevenção e Controle de Incêndios Florestais nas Áreas Federais Prioritárias”, no Amazonas.

O contraste é objetivo: enquanto a fumaça volta a transformar o ar de Manaus em risco para a população, há instrumentos, programas e recursos públicos disponíveis para prevenção. O que está em discussão agora é por que a capital permaneceu fora de uma dessas estruturas federais justamente quando os efeitos dos incêndios voltam a ser respirados por quem vive na cidade.