No dia do seu aniversário, a haitiana Guerlande Joseph Gonzalez recebeu muito mais do que um diploma. Ao concluir o curso de gastronomia do projeto Mulheres Fortes, em Boa Vista (RR), neste mês, ela celebrou também um novo capítulo de sua trajetória como refugiada no Brasil. Após deixar o Haiti para escapar da violência e reconstruir a vida ao lado dos filhos, a empreendedora encontrou na culinária multicultural uma oportunidade de gerar renda, conquistar autonomia financeira e realizar o sonho de abrir o próprio negócio.
Um dia antes de se formar, Guerlande e as colegas de curso prepararam os quitutes que seriam servidos na formatura. O trabalho em equipe rendeu um cardápio variado: bolos, salgados, doces e pastéis. A convivência com mulheres venezuelanas, fez com que a haitiana aprendesse a preparar as famosas “empanadas”, típicas da Venezuela.
“Eu já vendo pastel e empanadas, tenho um carrinho. Meu plano é ter uma padaria para fazer salgados e doces. Quero alugar um local e ter meu negócio”, planeja.
Do Haiti ao Brasil: uma história sendo escrita
Em sua terra natal, Guerlande trabalhou em bares e restaurantes. Morava com os pais e as duas filhas. Ela comenta que a vida no país estava muito complicada e não podia seguir vivendo lá. “Para não perder minha vida no Haiti eu resolvi sair. As coisas estavam muito difíceis. Quando eu falo difícil, é difícil mesmo. Às vezes eu não conto tudo porque é muita tristeza que eu passei. Tenho marcas no meu corpo. É difícil falar”, compartilha.
Guerlande chegou no Brasil em 2018, por Foz do Iguaçu, cidade que faz fronteira com a Argentina e o Paraguai. Conseguiu uma vaga de trabalho no Mato Grosso do Sul, em uma empresa do setor de alimentos. Na persistência de se estabilizar no país, ela se mudou para Chapecó (SC). Parte desta trajetória foi marcada por inúmeros episódios de violência que ela não gosta de relembrar.
Apesar dos avanços em políticas para acolhimento e inclusão, o estudo Análise de dados secundários sobre a integração socioeconômica da população haitiana no Brasil, conduzido pelo Observatório das Migrações Internacionais (OBMigra) em parceria com a Agência da ONU para Refugiados (ACNUR), indica que pessoas haitianas permanecem em situação de maior vulnerabilidade quando comparadas a outros grupos de refugiados, devido a barreiras como idioma, perfil socioeconômico, discriminação, xenofobia e racismo.
“As condições de trabalho dessa população continuam marcadas por vulnerabilidades estruturais, incluindo rendimentos inferiores aos de outros refugiados, jornadas excessivas, ausência de pagamento de horas extras, barreiras linguísticas e episódios recorrentes de discriminação. O empreendedorismo tem sido um caminho para mulheres buscarem sua autonomia econômica, valendo-se de habilidades que são valorizadas no Brasil” destaca Paulo Sérgio de Almeida, oficial de inclusão socioeconômica do ACNUR.
No oeste catarinense, Guerlande fez amizades venezuelanas e uma delas contou sobre a cidade de Boa Vista. Em 2025, decidiu se mudar com os filhos para o norte do Brasil.













