Derico Sciotti, 58, e os músicos de Jô Soares (1938-2022) vão se reunir neste sábado, no Blue Note, em São Paulo, para o show “Derico & Sexteto”, em homenagem ao apresentador. O espetáculo conta histórias ocorridas durante 28 anos de participação do músico no programa de entrevistas de Jô. Além dos relatos marcantes, o repertório do show tem músicas que fizeram parte do álbum gravado por Jô Soares & O Sexteto, em 1999, em São Paulo.
“Qual foi a minha ideia? Pegamos o projeto que fizemos com ele e falei: ‘vamos fazer uma homenagem ao Jô fazendo um show com esse repertório’. É um repertório que ele gostava de tocar, cantar, se preparou muito para fazer esse projeto e realizou. O Jô era um cara realizado, porque tudo que ele se propunha a fazer, ele fazia e é uma homenagem bacana de se fazer. A gente sabe fazer isso e é um show musical com aquela pegada de lembranças, memórias afetivas e trazendo para perto de novo uma lembrança dele, e ele sendo meio que protagonista sem estar presente.” afirmou Derico.
Multi-instrumentista vai se apresentar ao lado de Marcinho Eiras, Chico Oliveira, Marcos Romera, Binho Pinto e Marcelo Soares. Da formação original do grupo, Rubens Cubeiro Rodrigues, o guitarrista Rubinho, faleceu com o programa ainda no ar, em 1999. Já Bira, o baixista, morreu em 2019, período em que o programa já não estava mais no ar na Globo.
“O show vai ter músicas do disco, é o repertório inteiro, e muitas histórias. O show é um pouco interativo também, porque abro para perguntas, para as pessoas contarem as histórias próprias com relação ao programa e cada um de nós conta como entrou no programa. Então, também tem essa história particular de cada integrante que tem essa história com o Jô. É uma volta, digamos assim, ao que seria o Programa do Jô, só que com aquelas curiosidades sendo resolvidas.”
“Foi aposentado de forma compulsória”
Derico trabalhou por 28 anos com Jô Soares e integrou seus grupos musicais nos programas Jô Soares Onze e Meia (SBT) e no Programa do Jô (Globo). A relação com o apresentador transcendeu do contato de trabalho para amizade para vida.
“Ele era um amigo. A gente tinha muito respeito profissional. A gente sabia que a gente estava lá como funcionários de uma empresa, que a gente era contratado para um programa de televisão, mas o Jô dava liberdade para nós. Ele afrouxava a corrente para que a gente pudesse desenvolver o nosso potencial e ajudar, de alguma forma, o programa no sucesso, no desenvolvimento de ideias e tudo mais”, conta.
“Lógico que o programa era dele e ele que fazia o que ele bem entendia, mas a gente tinha um papel muito preponderante lá. Cada um tinha o seu protagonismo, mesmo que fosse pequeno, a gente tinha. O Jô dava espaço para mim, para fazer minhas brincadeiras, para fazer minhas paródias e isso é coisa de amigo. Isso não é coisa de patrão empregado. Isso é coisa de amigo, com certeza.”
O multi-instrumentista não esconde que sente falta do clima de alegria e descontração dos tempos de trabalho em SBT e Globo com o apresentador. “Quando o Jô mudou do SBT para Globo, ele foi com 22 componentes. Ele levou todo mundo, foi um dos requisitos do contrato. Ele é um cara muito fiel. Nós fomos muito felizes nas duas emissoras. Sinto muita falta daquele clima de alegria”.
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“SBT é uma empresa espetacular e fizemos muita coisa legal, mas a Globo é a Disneylândia. Na Globo, o que você quer fazer, ela te dá a certeza de que você vai conseguir fazer. Era essa a relação que a gente tinha com a Globo e foi uma relação muito boa até acabar, porque a gente conseguiu fazer tudo que a gente imaginou.”
Derico alega que a emissora carioca pecou somente na condução de promover a saída de Jô Soares do ar. Ele entende que a relação de começo e o meio foi de excelência, mas o fim não houve “elegância”, por tudo que o apresentador representava para história da televisão.
“O fim não pegou todo mundo de surpresa, mas foi triste. Foi muito triste porque eu, particularmente, acho que não era o momento. Entendo que tudo tem um começo, um meio e um fim. Tanto o começo quanto o meio teve um patamar de excelência e de glamour, mas o fim não teve elegância e poderia ter tido porque o Jô merecia. Ele merecia esse resguardo e esse carinho, mas não foi bem assim que a coisa aconteceu.”
Jô Soares, segundo o músico, acabou aposentado pela Globo por falta de propostas para novos projetos. “Foi chato porque poderia ter ficado um pouco mais no ar, mas a concorrência já não era uma concorrência que o Jô estava a fim de peitar. As oportunidades que a Globo estava dando para que a coisa continuasse já não eram as mesmas”.
Foi ficando uma coisa um pouco restrita e muito sem opção, sabe? Eles não estavam dando muita opção de escolha. Ou você faz isso ou você tá fora e isso que eu acho que pegou. Isso que eu acho que foi uma coisa triste, porque não se deu a oportunidade de o Jô ter um plano B, uma coisa nova para continuar. Ele foi aposentado, na verdade, de forma compulsória.
“Não tinha nada a ver com TV”
Nascido em 1966, João Frederico Sciotti é natural de São Paulo e ficou famoso pelo apelido de Derico. Caçula de três irmãos, o artista cresceu numa família de músicos, todos pianistas, e viu o tio Pedrinho Matar fazer sucesso e ter até programa na TV.
“Quando fiz cinco anos, que é uma idade que a minha mãe achava interessante para os filhos estudarem música, ela me deu uma flauta doce, aquelas flautinhas de plástico, para iniciação musical. Me dei bem com o instrumento porque era uma sequência do que eu já fazia, que era assoviar. Comecei a tocar flauta com cinco, aos oito fui estudar e me profissionalizei e iniciei os trabalhos. Depois, fui para o saxofone, instrumentos de sopro e aprendi piano. Agora, com 58 anos, estou completando 50 anos de profissão.”
Aos 22, Derico começava a tocar safoxone e estava focado em uma carreira erudita, tocando com orquestras, fazendo recitais e viajando pelo país para apresentações. Quis o destino que o maestro Edmundo Villani Cortes, integrante do quarteto do Jô Soares Onze e Meia, o convidasse para um teste na atração.
“No meu repertório, eu tocava muito compositor brasileiro e um deles era o Edmundo Villani, que, coincidentemente, era pianista do quarteto do Jô. Quando o Jô pediu para aumentar para quinteto, o maestro me ligou porque me conhecia e pediu para eu fazer o teste com saxofone. Falaram assim: ‘O Derico é bom, estuda saxo e o Jô vai gostar dele, porque ele é meio bobão’. Olha a fama que eu já tinha”.
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O convite para o teste no SBT chegou no fim de 1989, mas ficou marcado para 7 de março de 1990 em virtude das festividades de final de ano. No dia de ir ao canal, ele cogitou desistir em virtude da mulher entrar em trabalho de parto de seu primogênito. “Eu não tinha nada a ver com TV, mas aquilo era uma outra realidade porque seria CLT, teria todas as regalias, trabalharia na segunda maior emissora do país e com um cara que é topo da cadeia alimentar. Tudo o que a gente sempre quer”.
“Ela entrou em trabalho de parto, botei num carro que eu não tinha, que era emprestado, e levei ela pra maternidade. Falei pra ela que não iria fazer o teste: ‘vou conversar pra ver se o teste rola outro dia’. A minha mulher não aceitou a minha decisão e disse: ‘não adianta nada você ficar aqui. Tem um monte de coisa pra acontecer. Vai lá fazer o teste e volta’. Deixei ela com o ginecologista e fui embora para o SBT.”
Chance de mostrar seu talento musical para se tornar o quinto elemento da banda do Jô Soares Onze e Meia foi direto numa gravação do programa. “Agradeci o maestro pelo convite e fui conhecer o Jô. Ele brincou ‘ô, Derico, gostei do seu nome. Escapou do Fred, hein’. Passei o som, vi que o teste era diferente e do nada aparece Pelé, o Papa e o presidente da república. Falei: ‘pô, esse teste vai ser lindo’. Não era teste e já era gravando oficial. O Jô gravava três programas por dia e fiz os três direitinho. No fim, a diretora do programa me agradeceu e o Jô veio falar: ‘vou contratar esse menino”.
“Eu fiquei todo feliz e falei: ‘Jô, que legal, obrigado, mas eu tenho que ir. Minha esposa entrou em trabalho de parto hoje e eu vim gravar com ela na maternidade’. O Jô ficou louco: ‘sabia que você é o cara. É a escolha certa’. A diretora já mandou passar no RH pra pegar um documento da contratação e me deram uma carteira do plano de saúde do SBT. Falei: ‘vou chegar na maternidade e pagar tudo’. Cheguei na maternidade depois da meia-noite e vi o nascimento do meu filho na madrugada de 8 de março. Foi assim que entrei no Jô: acordei com incertezas na vida e virei pai e ganhei emprego fixo.”
“Fama subiu para cabeça”
Derico viu a vida mudar totalmente após a exposição de seu trabalho na TV. Além de ganhar dinheiro com o vínculo com o SBT, o músico passou a fazer apresentações pelo Brasil afora e acabou se deslumbrando com a fama.
“Demorei um tempo para conseguir absorver a fama porque eu era um moleque de 23 anos. A fama é um susto, uma surpresa e uma realidade que você vira um todo-poderoso. Meu cachê estava nas alturas, todo mundo me ligando, eu saindo na rua e todo mundo tirando foto. Solicitações para viagens, propagandas, você associar sua imagem a marcas e tudo mais. Mudou toda a minha vida”.
Isso é uma coisa difícil de você lidar. A fama subiu para cabeça e demorei pra aprender a lidar. Eu consegui adquirir esse poder de adaptação e de segurança em cima da minha profissão depois de muito tempo, depois de anos trabalhando no programa.
Músico se recorda que uma das atitudes de deslumbramento com a fama lhe fez cogitar sair do Jô Soares Onze e Meia e levou uma bronca do apresentador ao avisar que a decisão era por não gostar de ser visto como humorista. “Falei pro Jô que estava sendo assediado como humorista e não músico e não queria isso. Era coisa de moleque minha e o Jô disse: ‘Derico, vem cá, deixa de ser idiota. Você não tem nada que sair. Aproveita o fato de você ser o assessor de assuntos aleatórios, faz um show, fala algumas bobagens e toca para as pessoas verem o músico maravilhoso que é”.
“Ele ainda disse: ‘o dia que você for imprescindível, você senta aqui e me fala isso de novo. Agora, vai para o camarim, se troca e vamos trabalhar’. Nunca mais na minha vida eu falei disso com ele. Foi a única vez que ele me pegou para Cristo e me deu uma lição de pai. Fiquei 28 anos lá.”
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