Os benefícios da imunização para esse grupo são muito incertos e não há evidências conclusivas sobre o efeito na transmissão a curto e médio prazo.

Comitê Conjunto de Vacinação e Imunização (JCVI), um dos órgãos que aconselha o governo britânico, recomendou que pessoas saudáveis de 12 a 15 anos de idade não sejam vacinadas contra Covid, por considerar que os benefícios da imunização para esse grupo são muito incertos e não há evidências conclusivas sobre o efeito na transmissão a curto e médio prazo.

Além disso, a vacina tem benefício menor para essa faixa etária, que naturalmente não tem risco alto de contrair Covid.

O órgão afirma que optou por uma “abordagem de precaução”, já que há um risco –pequeno– na imunização: “Há evidências cada vez mais robustas de uma associação entre a vacinação com vacinas de mRNA e miocardite, um evento adverso muito raro”.

Os casos conhecidos ainda estão em processo de descrição pelos cientistas, mas são “potencialmente graves”, segundo o comitê.

Precaução semelhante foi adotada pelo governo dos EUA, que estuda iniciar a imunização dessa faixa etária até o final do ano.
Já no Chile mais de 650 mil crianças acima dos 12 anos receberam uma primeira dose, e nesta semana a imunização foi aprovada a partir dos 6 anos. Na Espanha, jovens de 12 a 17 anos receberam uma dose de Pfizer no começo deste mês, antes do início das aulas.

Também na cidade de São Paulo, jovens de 12 a 16 anos sem comorbidades começaram a ser vacinados nesta segunda (6).

No geral, o comitê britânico considera que os benefícios da vacinação são marginalmente maiores do que os danos potenciais conhecidos, mas afirma que há uma incerteza considerável quanto à magnitude desses danos potenciais.

De acordo com o JVCI, à medida que dados de longo prazo sobre reações adversas se acumulam, uma certeza maior pode permitir uma reconsideração dos benefícios e danos. Mas esses dados podem levar vários meses para estarem disponíveis.

RECOMENDADO PARA CRIANÇAS COM PROBLEMAS DE SAÚDE

Em avaliações anteriores, o JVCI havia recomendado a aplicação do imunizante da Pfizer tanto para todos os jovens de 16 e 17 anos quanto para crianças de 12 a 15 anos com problemas de saúde, entre os quais diabetes tipo 1, doença cardíaca congênita, doença falciforme e distúrbios hematológicos.

A vacinação é também recomendada para crianças de 12 a 15 anos com asma mal controlada (que requer uso contínuo de medicamentos), malformações congênitas de rins ou do sistema digestório, distrofia muscular, paralisia cerebral, epilepsia e síndrome de Down, entre outros grupos de risco.

O comitê ressalta que suas decisões levam em conta apenas o impacto nas crianças, sem considerar variáveis como disponibilidade de vacina, suprimento futuro ou custos associados à execução de um programa, nem possíveis impactos sociais mais amplos, incluindo benefícios educacionais.

De acordo com Eleanor Riley, professora de imunologia e doenças infecciosas da Universidade de Edimburgo, o JVCI de fato não foi projetado para avaliar outros impactos da imunização geral de crianças, como o educacional, e essas questões mais amplas devem ser discutidas pelos órgãos de formulação política do governo britânico.

Peter English, presidente do Comitê de Medicina de Saúde Pública da Associação Médica Britânica, disse que o JVCI “parece ter deixado deliberadamente a porta aberta para que o governo leve em consideração os benefícios indiretos para implementar a vacinação nesta faixa etária”.

O governo britânico teme que o início do novo ano letivo ajude a formação de uma quarta onda de contaminação, principalmente depois que o Ministério da Educação inglês dispensou medidas de prevenção como o uso de máscaras e quarentenas para grupos de contato.

CIENTISTAS CRITICAM

Outros cientistas criticaram o próprio cálculo de custo/benefício feito pelo comitê, por não ter levado em conta o impacto da Covid longa em crianças que contraem o coronavírus.

Segundo Nathalie MacDermott, do King’s College de Londres, dados recém-divulgados pelo estudo CLoCK mostram que sintomas persistentes e incapacitantes por mais de 15 semanas após a doença ocorrem em 1 a cada 7 crianças e jovens.

Outro problema, segundo o professor Simon Clarke, da Universidade de Reading (Inglaterra), é que o JCVI enfocou o risco para a faixa etária específica, e não o risco para a sociedade em geral.

“No Reino Unido, crianças de todas as idades recebem uma infinidade de vacinas e seria errado pensar que elas as recebem apenas para a proteção de sua própria saúde”, diz, citando a imunização contra gripe e rubéola, que teria como prioridade impedir a transmissão para outros grupos.

“E os meninos são vacinados na escola secundária contra o papilomavírus humano, principalmente para proteger as mulheres contra o câncer cervical.”

Para Clarke, ao não recomendar a vacinação geral de crianças de 12 a 15 anos, o JCVI amplia as oportunidades de que o vírus se espalhe na comunidade.