(Imagem: Wind/Reprodução)

As queimadas na Amazônia explodiram nos últimos sete dias e fizeram o bioma viver sua maior média diária de focos de calor sob o governo de Jair Bolsonaro (PL). Os dados são do Inpe (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais).

Somente ontem, enquanto Bolsonaro chamava de mentira no Jornal Nacional a fama de país destruidor da floresta, foi registrado um recorde de queimadas: 3.358 focos de incêndio, o maior número para o mês em pelo menos cinco anos.

“Foi o pior dia de agosto desde ao menos 2017. Deve ter sido de antes até, mas não tenho os dados anteriores”, diz Ane Alencar, diretora de Ciência do Ipam (Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia) e coordenadora do MapBiomas Fogo.

Para dar uma ideia da quantidade exorbitante de focos, o número é maior que o total registrado no mês de junho deste ano, quando foram 2.562 focos captados por satélite pelo Inpe.

Nos últimos sete dias, foram 13.174 focos contabilizados, o que dá uma média de 1.882 ao dia. Até então, as piores médias diárias registradas pelo Inpe no atual governo foram em agosto de 2019 (média de 996/dia) e setembro de 2020 (média de 1.067/dia).

No primeiro semestre de 2020, a Amazônia já havia registrado uma alta de 17% nas queimadas.

“Estamos chegando perto da metade da estação de fogo na Amazônia e já estamos registrando mais de 3.000 focos em um só dia. Esse número é maior do que aconteceu no ‘Dia do Fogo’, indicando que as previsões sobre aumento do fogo em anos de eleição começam a se concretizar”, diz Ane.

No que ficou conhecido como ‘Dia do Fogo’, entre os dias 10 e 11 de agosto de 2019, desmatadores decidiram, de forma coordenada, atear fogo às margens da BR-163, no Pará, com foco em Novo Progresso.

Naqueles dois dias, o Inpe detectou 1.457 focos de calor no estado. Já entre domingo e ontem, esse número foi ainda maior: 2.238.

Histórico

Agosto e setembro são os meses que, historicamente, mais têm queimadas na Amazônia, coincidindo com o período de menos chuvas na região. É nesse bimestre que ocorre a chamada estação do fogo. Nos últimos dias, ele se concentrou principalmente na região mais ao sul da Amazônia, em especial no estado do Pará e no sul do Amazonas. Segundo o Inpe, nos últimos cinco dias, os municípios com mais focos registrados foram:

  • Apuí (AM) – 357
  • Novo Progresso (PA) – 331
  • Altamira (PA) – 323
  • São Félix do Xingu (PA) – 261
  • Novo Aripuanã (AM) – 243

Diferentemente de outros biomas pelo mundo, na Amazônia não há queimadas causadas por autocombustão. Elas são em quase 100% dos casos relacionadas ao homem no processo conhecido como limpeza de área.

Em regra, o fogo vem em seguida a um processo de desmatamento, que destrói os demais materiais vivos e prepara o terreno para virar um pasto.

Ao longo do governo Jair Bolsonaro, as queimadas se tornaram constantes e, em 2019, chamaram a atenção do mundo.

No último domingo, por conta das queimadas, a fumaça invadiu a cidade de Manaus, e vários moradores relataram incômodos pelas redes sociais. Hoje também houve reclamações de moradores.

Diferença da Europa

Segundo Rodolfo Salm, doutor em ciências ambientais e professor de ecologia na Faculdade de Biologia na UFPA (Universidade Federal de Pará), em Altamira, os incêndios florestais são bem diferentes daqueles vistos na Europa —que enfrenta a pior onda de calor da sua história. Ele compara com a mentira dita por Bolsonaro na sabatina do Jornal Nacional ontem.

“A diferença é que, enquanto o fogo faz parte da dinâmica de longo prazo das florestas europeias, extremamente pobres em espécies de árvores, este não é o caso da megadiversa floresta tropical amazônica”, diz.

Segundo ele, um único evento de queimadas em uma área de mata nunca antes submetida ao fogo na Amazônia gera uma grande mortalidade de árvores. “No ano seguinte, essa mesma floresta submetida ao fogo queimará intensamente, sendo destruída em definitivo”, afirma.

“A Europa tem uma área crescente de florestas, enquanto a região amazônica vem perdendo área florestada a cada ano; antes pelas bordas, e agora cada vez mais rapidamente pelo meio. Isso a aproxima cada vez mais do ponto de não retorno , quando não conseguiremos mais salvá-la”, finaliza.

*Com UOL