Presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva, durante ato de campanha em Recife - Foto: Ricardo Stuckert

A nove dias das eleições, o presidente Lula (PT) anunciou uma medida provisória que proíbe as bets no país. O governo também vai enviar ao Congresso um projeto de lei, em regime de urgência, para punir quem promover apostas online no país.

Lula comparou o vício em bets à época em que o uso de crack começou no país. “Tem coisa que é estarrecedora, me lembrou um pouco no começo do crack nesse país. A sociedade ficou absolutamente desprotegida. Esse país que era contra cassino, contra briga de galo, trouxe o cassino para dentro de casa”, declarou.

“Tomei a decisão de tomar uma medida dura, drástica e necessária. É como um tumor, ou a gente tira, ou o tumor vai matar a gente.” afirmou Lula.

“Virou uma espécie de jogatina sem controle”, afirmou Lula. “Já faz algum tempo que nós estamos discutindo essa questão das bets, desde o começo do governo. Vai aumentando na nossa cabeça a certeza de que algo está acontecendo na sociedade além do endividamento”, disse.

Quais são as medidas

As principais explicações foram dadas pelo ministro da Fazenda, Dario Durigan. Ele classificou as bets como uma “doença que acometeu o país” e um “problema de saúde pública” e mencionou consequências causadas pelo vício em apostas, como o endividamento das famílias brasileiras e casos de suicídio de apostadores.

Apostadores terão até 23h59 de segunda-feira para retirar voluntariamente o dinheiro das plataformas de apostas. Caso não consigam retirar o valor até 5 de outubro, os bancos que operam para as bets farão a devolução ao apostador, segundo Durigan.

Sites e aplicativos de apostas saem do ar a partir do dia 6 de outubro. Segundo o governo, as empresas também terão até o dia 5 para retirar todas as peças e ações de publicidade, tanto em meios físicos como digitais O mesmo prazo será dado para a retirada de marcas oriundas de contratos de patrocínio.

A medida provisória passa a valer assim que for publicada no Diário Oficial da União. No entanto, precisa ser aprovada pelo Congresso em até 120 dias para se tornar uma lei. Caso não seja votado no prazo, o texto perde a validade.

Bets se tornaram uma questão de saúde pública no Brasil – Foto: Joedson Alves / Agência Brasil

O governo também anunciou medidas de fiscalização. Entre elas, a proibição de qualquer transferência bancária para apostas, o bloqueio de contas usadas para apostar ilegalmente, a identificação e a derrubada de sites ilegais.

A MP ainda cria o Comitê Institucional de Fiscalização e Combate à Exploração Ilegal de Apostas, coordenado pela Casa Civil. Segundo o governo, o órgão vai coordenar as ações para a prevenção, a fiscalização e a repressão à oferta, a exploração e a publicidade das bets. Empresas e pessoas físicas que descumprirem as regras podem ter de pagar R$ 2 bilhões, e pessoas jurídicas podem ter as atividades suspensas.

Durigan atribuiu ao governo Bolsonaro a ampliação do mercado de apostas no país. “Medidas fundamentais, como a proteção de crianças e adolescentes, o combate à lavagem de dinheiro, a tributação e normas básicas de civilidade, foram ignoradas”, afirmou. As apostas esportivas foram liberadas no último ano do governo de Michel Temer (MDB), em 2018. A regulamentação ocorreu no governo Lula, fora do prazo previsto.

No evento de anúncio, o ministro da Saúde, Alexandre Padilha, apresentou dados de riscos causados pelas bets. Ele afirmou que a mortalidade por suicídio é 15 vezes maior em pessoas com vício em jogo. O risco aumenta para pessoas mais pobres. Danos associados ao jogo causam custo social de R$ 38,8 bilhões anuais para o Brasil.

Bets e campanha eleitoral

A expectativa da campanha é que a medida fure a bolha. Pesquisas mostram que a maioria dos brasileiros aprova a proibição das bets, principalmente os evangélicos, grupo no qual Lula enfrenta resistência.

No anúncio de hoje, Lula voltou a criticar os clubes por defenderem bets e citou times endividados. “O time quer pagar a dívida com o próprio dinheiro do torcedor?”, questionou

Na semana passada, os principais times brasileiros publicaram uma nota conjunta que dizia que a proibição das casas de aposta seria “o fim do futebol”. Lula passou a rebater as críticas, afirmando que o esporte sempre sobreviveu sem as bets.

Lula vinha afirmando em atos de campanha que acabaria com as bets. O tema está presente, inclusive, na propaganda eleitoral do petista na TV. Em evento com artistas na quarta, uma frase foi projetada no telão: “Flávio é bet, Lula é o caminho”. Em discurso, o candidato à reeleição afirmou que não pode deixar a ludopatia — que é o vício em jogos de azar e apostas — tomar “conta do povo brasileiro”.

O presidente também se reuniu com pessoas que se viciaram em jogos e perderam bens e se endividaram. Passou a contar sobre esses relatos em eventos públicos e reuniões.

Bap expõe a nova camisa do Flamengo com patrocínio da Betano, ao lado do presidente da casa de apostas, Guilherme Figueiredo – Foto: Reprodução / Flamengo TV

Já Flávio Bolsonaro (PL) abordou o assunto na última quarta-feira, ao chamar o PT de “partido do tigrinho”. Apesar de se dizer contra “jogos de qualquer forma”, o candidato afirmou em live no YouTube que aposta em “jogos reais”, como em partidas de futebol, é possível controlar. O senador também acusou o presidente de liberar apostas no país.

As apostas esportivas foram liberadas no governo de Michel Temer (MDB), em 2018. A legislação previa uma regulamentação do setor até 2022, mas isso não foi feito nos quatro anos da gestão Jair Bolsonaro (PL). Em 2023, já sob Lula, o Planalto passou a discutir o tema. A liberação dos jogos online, como o tigrinho, foi incluída pelo relator do texto na Câmara, o deputado Adolfo Viana (PSDB-BA), conforme mostrou a Folha de S.Paulo.

Bets x tigrinho

Bets são apostas em evento real, como partida de futebol e basquete. Já os cassinos online são jogos digitais que simulam os cassinos físicos, como roleta, blackjack e pôquer. O jogo do tigrinho é da categoria de caça-níqueis e, portanto, está incluído em cassinos online.

Para 57% dos brasileiros, apostas online viciam, segundo pesquisa Datafolha. Levantamento feito pela Hibou, empresa especializada em pesquisa e insights de mercado e consumo, divulgado no início deste mês, mostrou que mais da metade dos brasileiros que apostam já atrasou o pagamento de alguma conta.

*Com informações de Uol