Foto: Dheik Praia / Acervo Vanda Witoto

A candidata a deputada federal pelo Amazonas Vanda Witoto (MDB) inaugurou seu comitê eleitoral, em Manaus. Ao lado de apoiadores, lideranças e aliados, afirmou que sua campanha pretende romper com uma forma de fazer política baseada na troca de benefícios por votos.

“A forma de fazer política nesse Estado, que é a compra de votos, essa moeda que se troca nos nossos territórios, a lata de gasolina, os 50 reais, os 100 reais que se oferecem, ela é muito dolorosa. Após o mandato dessas pessoas eleitas, elas não voltam para construir as suas políticas”, criticou a candidata.

Com o discurso voltado à representatividade indígena, à defesa dos direitos básicos e à necessidade de renovação política no Estado, para ela, a disputa eleitoral deve ser construída com participação popular, autonomia dos eleitores e compromisso com políticas públicas permanentes para os territórios.

“Se a gente continuar elegendo aqueles que já estão no poder e não se comprometem com os direitos básicos, se essas pessoas que a gente tem colocado nesse espaço seguirem construindo o mecanismo de se auto protegerem, não olhando para esses territórios, para as periferias, os quilombos, as aldeias, os agricultores, os pescadores, para as ribeirinhas, as pessoas que estão no interior, essas pessoas vão continuar sofrendo”, afirmou.

A candidata defende um processo de educação política junto a povos tradicionais para que o voto não seja condicionado à necessidade imediata ou à pressão de lideranças políticas. Vanda também denunciou situações de constrangimento enfrentadas por moradores e lideranças durante o período eleitoral.

“A gente hoje vivencia uma violência muito triste, as lideranças estão com medo no território porque são obrigadas a votar no candidato do prefeito, do deputado, do vereador, porque eles são ameaçados em seus territórios. A gente precisa de muitas estratégias e muitos diálogos ancestrais mesmo com os nossos, para eles acreditarem que essa candidatura vai garantir esse presente e o futuro deles. E isso é desafiador. Porque eu não entrego a lata de gasolina. Eu não entrego 20 reais pelo voto de nenhum parente”, declarou.

Histórico de luta e resistência

Para Vanda, a chegada ao processo eleitoral é parte de uma caminhada que começou muito antes de sua decisão de disputar uma vaga no Congresso Nacional. Segundo ela, os povos indígenas carregam uma história de mais de cinco séculos de luta pela garantia de direitos que ainda não são plenamente assegurados, como acesso à água, saúde, educação e moradia digna.

“Quando eu olho para essa jornada política que nós estamos fazendo, eu olho como uma esperança, como um suspiro para a gente pensar a dignidade dos povos do Estado do Amazonas”, afirmou.

Foto: Dheik Praia / Acervo Vanda Witoto

A candidata também chamou atenção para a história recente da participação política de grupos historicamente excluídos. Ela lembrou que mulheres, pessoas negras e povos indígenas conquistaram o direito de participar formalmente da vida política apenas recentemente e avaliou que a presença de mulheres indígenas nos espaços de decisão ainda é necessária para ampliar a representação de diferentes realidades sociais.

“Quando nós, mulheres, nos erguemos para falar da defesa da terra, da proteção do rio, da proteção da floresta, a gente vai para uma dimensão que é para além desse território. A gente fala de espiritualidade, a gente fala da dignidade de pensar o futuro”, disse.

Meio ambiente e adaptação climática

Em seu discurso, Vanda também relacionou a disputa eleitoral aos desafios ambientais enfrentados pelo Amazonas. Ela defendeu a necessidade de políticas públicas voltadas à proteção dos rios e da floresta e à adaptação das cidades e comunidades às mudanças climáticas.

A candidata criticou a ausência de uma agenda climática que, em sua avaliação, esteja à altura dos desafios vivenciados no Estado. Citou o aumento das temperaturas nas áreas urbanas, a degradação dos igarapés de Manaus e os impactos das queimadas e das mudanças climáticas nos municípios do interior.

“Hoje eu olho e não tem um deputado federal com pautas climáticas. Nós não temos governos pensando em estratégias de adaptação climática. Manaus, os interiores estão pegando fogo. A floresta está queimando, e não se tem plano político para enfrentar esses desafios”, afirmou.

Mulheres e cultura no projeto político

Durante a inauguração, Vanda também apresentou a candidatura como parte de um movimento mais amplo de ampliação da presença de mulheres na política amazonense. Para Witoto, a articulação entre diferentes candidaturas pode contribuir para ampliar a representação de pautas sociais, ambientais, culturais e dos povos tradicionais nos espaços de decisão.

“Nós precisamos de deputadas estaduais e federais aqui, porque eu acompanho as discussões na Assembleia Legislativa. É muito triste ver o nível de debate de pessoas que não conseguem propor minimamente um mecanismo de políticas públicas aqui, seja lá ou na Câmara de Vereadores, a gente tem um nível de discussão muito baixo para os problemas que temos no nosso Estado.”

Ao encerrar o evento, Vanda convocou os apoiadores para uma força-tarefa nos 28 dias restantes de campanha e disse acreditar que a candidatura pode representar um momento histórico para o Amazonas.

“Já passou da hora desse Estado ter uma mulher indígena nos representando em Brasília”, afirmou. “Nós queremos fazer história junto, meus parentes.”