
Redução do volume de rios, lagos, igarapés e poços, aquecimento das águas, dificuldades de deslocamento, perdas na pesca e nas plantações e aumento do risco de queimadas já são relatados por comunidades amazônicas. Para antecipar os impactos de um possível El Niño e fortalecer a preparação dos territórios, a Fundação Amazônia Sustentável (FAS) lançou a Aliança Adaptação El Niño 2026-27: agir antes da emergência.
O lançamento ocorreu durante edição extraordinária do 41º Encontro de Lideranças Representantes de Associações dos Territórios de Atuação da FAS. Realizado de forma on-line, o encontro reuniu cerca de 100 participantes para identificar mudanças já percebidas nos territórios, principais vulnerabilidades e medidas necessárias para reduzir os impactos de novos eventos climáticos extremos.
Os relatos mostram efeitos que alcançam diferentes dimensões da vida comunitária, como acesso à água, deslocamento, pesca, produção de alimentos, educação, saúde, turismo e escoamento da produção.
“As mudanças do clima para a gente estão absurdas. Em 15 dias, tínhamos uns 20 metros de água e agora não temos mais acesso. A maniva está murchando e queimando. Estamos sem saber o que fazer em relação à seca. Neste período, já precisamos percorrer três quilômetros para chegar à praia”, relata Alcione Rodrigues, morador da Comunidade Nossa Senhora de Fátima, na Reserva de Desenvolvimento Sustentável (RDS) Mamirauá.
A Aliança terá como foco o monitoramento das condições ambientais e climáticas, a identificação dos territórios mais vulneráveis e a mobilização de recursos e parceiros para ações de prevenção, adaptação e resposta. A proposta é transformar informações e demandas apresentadas pelas próprias comunidades em planejamento e ações concretas antes que eventuais condições extremas resultem em novas situações de emergência.
“Essa aliança nasce da experiência que acumulamos em outros momentos de crise, como a pandemia, as grandes cheias e as secas de 2023 e 2024. Agora, diante do risco de um novo El Niño, queremos reunir associações indígenas, quilombolas, ribeirinhas, organizações e parceiros para agir de forma conjunta. O espírito é esse: todo mundo remando junto para enfrentar os impactos e construir respostas para as comunidades”, afirma Virgilio Viana.
Experiência das secas anteriores orienta preparação
A iniciativa parte dos aprendizados das secas históricas enfrentadas pela Amazônia em 2023 e 2024, quando comunidades tiveram dificuldades de acesso à água potável, alimentos, serviços de saúde, educação e transporte, entre outros impactos.
“Nossa maior dificuldade é a água potável. Desde 2023, temos passado por momentos difíceis. Em 2024, sofremos uma seca extrema e nosso maior medo de 2026 é que isso se repita. A água não estava sendo captada pelos poços, e essa foi uma das maiores dificuldades”, relata Kelly Regina, da Comunidade Santa Rita do Uarumã, na Reserva de Desenvolvimento Sustentável (RDS) Piagaçu-Purus.












