Embarcações no Estreito de Hormuz, vistas de Musandam, Omã - Foto: Reuters
O Irã aposta em uma estratégia de desgaste para pressionar os EUA ao ampliar riscos a rotas comerciais, gargalos marítimos e infraestrutura de energia no Oriente Médio, de acordo com autoridades do Golfo e analistas ouvidos pela Reuters
Teerã, segundo essas fontes, não busca uma vitória militar decisiva, mas uma escalada calibrada para aumentar o custo do confronto sem provocar uma guerra em larga escala. A leitura é que o objetivo é convencer Washington e aliados de que conter a crise sai mais caro do que aceitar exigências iranianas ligadas ao Estreito de Hormuz.
Autoridades e analistas afirmam que a mensagem iraniana é de que, sem um “novo status quo” que amplie o papel do país no canal, o conflito pode se espalhar para além do Golfo. Ao colocar em risco diferentes pontos de estrangulamento marítimo e ativos de energia, o Irã acredita que melhora sua posição para futuras negociações.
Uma fonte do Golfo descreveu a aposta iraniana como a crença de que ampliar a guerra e a pressão pode levar Donald Trump a ceder. “Quanto aos iranianos, a ideia é que, ao ampliar a guerra e aumentar a pressão, ele acabará cedendo. Trump acha que pode golpear duramente os iranianos e levá-los à mesa de negociações, mas eles não vão ceder”, disse a fonte à agência.
Teerã também avalia que Trump evita se envolver profundamente em mais um conflito no Oriente Médio antes das eleições legislativas de novembro, segundo as mesmas fontes. Essa conta, dizem analistas, sustenta a estratégia de negociar a partir de uma posição de força, e não de concessões iniciais.
O republicano afirmou que conversas com o Irã ocorreriam na segunda-feira, após dizer que havia cancelado um ataque iminente na tentativa de obter um acordo para reabrir Hormuz. O Irã, porém, declarou que não mantém conversas com os EUA no momento, apenas com Omã a respeito da via marítima.
Como Teerã tenta aumentar o custo do confronto
Após demonstrar capacidade de interromper o tráfego em Hormuz, por onde passava cerca de um quinto do consumo global de petróleo antes da guerra, o Irã sinalizou que nenhum gargalo marítimo está fora de alcance. A avaliação é que ameaças ao Mar Vermelho e à infraestrutura de energia da Arábia Saudita fazem parte de um esforço mais amplo para encarecer a proteção do comércio global e testar a tolerância de Washington a interrupções.
Michael Knights, do Washington Institute, disse que o Irã tenta superescalar os EUA ao manter opções novas de escalada a cada semana. “Desde o início, o Irã tem tentado superar a escalada dos Estados Unidos ao diversificar suas opções de escalada, de modo a sempre apresentar algo novo a cada semana — uma nova geografia, um novo tipo de arma, um novo tipo de alvo”, afirmou à Reuters.
Para Knights, o principal trunfo iraniano está no impacto regional e econômico, e não em atingir diretamente os EUA ou Israel. “A maior vantagem que eles têm não é a de poderem prejudicar os Estados Unidos ou Israel. A grande vantagem deles é que podem prejudicar os Estados da região e a economia global”, acrescenta.
No centro do impasse está a governança futura do Estreito, segundo fontes regionais citadas no relato. Omã teria apresentado ao Irã uma proposta apoiada por países do Golfo para administrar a via, incluindo taxas voluntárias de usuários. Teerã, porém, busca autoridade administrativa sobre o estreito e a capacidade de cobrar taxas de serviço de embarcações, de acordo com as fontes.
Washington rejeita qualquer cobrança e defende que Hormuz permaneça uma via internacional livre de controle iraniano. Alan Eyre, ex-diplomata dos EUA e especialista em Irã, disse à Reuters que “eles não querem que os EUA ditem o ritmo dos acontecimentos”.
A disputa se tornou um teste de resistência, com líderes iranianos apostando que suportam pressão econômica por mais tempo do que uma coalizão liderada pelos EUA tolera interrupções recorrentes no comércio e nos mercados de energia. O texto conclui que, com Washington e Teerã testando os limites um do outro, permanece o risco de a estratégia de maximizar poder de barganha sair do controle.
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