
Uma casal de artistas excêntricos, um plano mirabolante e os filhos correndo pela casa ao lado de um leão. É assim que viviam Tippi Hedren, estrela do clássico ‘Os Pássaros’ e Noel Marshall, produtor de ‘O Exorcista’, na Califórnia.
O animal, chamado Neil, convivia diariamente com a família e circulava livremente por todos os cômodos. Isso mesmo.
Fotos impressionaram o mundo
Em 1970, a revista Life publicou uma reportagem mostrando Neil vivendo como se fosse um animal doméstico. As imagens exibiam o leão brincando na piscina com Melanie Griffith, filha de Tippi Hedren, descansando na cozinha e até dormindo na cama da adolescente.
Naquele momento, a convivência parecia tranquila. No entanto, a atriz passou a enxergar a situação de forma completamente diferente anos depois.
Em entrevista concedida ao Daily Mail, em 2014, Hedren foi direta ao comentar aquelas fotografias.
“Eu me encolho quando vejo essas fotos agora. Devo dizer que éramos incrivelmente estúpidos. Nunca deveríamos ter assumido esses riscos. Esses animais são tão rápidos e, se decidirem ir atrás de você, nada além de uma bala no cérebro os deterá.”
Como um leão foi parar dentro da casa?
A ideia surgiu durante a preparação de um projeto cinematográfico. Tippi Hedren e seu então marido, o produtor Noel Marshall, planejavam gravar um filme sobre uma família que vivia cercada por leões, tigres e panteras.
Antes das filmagens, eles procuraram o treinador de animais Ron Oxley, que sugeriu uma experiência prática: conviver primeiro com um único leão antes de reunir dezenas de felinos em um mesmo set.

Segundo Hedren, Oxley estabeleceu diversas regras para reduzir os riscos da convivência. Entre elas estavam evitar movimentos bruscos, nunca correr em direção ao animal, não provocar o leão e jamais permitir que ele se tornasse dono de um cômodo ou móvel da casa.
Durante esse período, o felino nunca atacou nenhum integrante da família.
Filme virou um dos mais perigosos da história
Depois da experiência, Tippi Hedren e Noel Marshall decidiram seguir adiante com o projeto de “Roar”, longa-metragem que acabou entrando para a história pelos bastidores extremamente perigosos.
As gravações levaram vários anos para serem concluídas, consumiram cerca de US$ 17 milhões — muito acima do orçamento inicial — e ficaram marcadas pelos inúmeros acidentes envolvendo animais selvagens.
A própria atriz reconheceu que a produção registrou diversos episódios graves.
“Houve sete grandes incidentes e duas pessoas quase morreram durante a produção do filme.”
Entre os casos mais conhecidos está o de Melanie Griffith, que sofreu um ataque de uma leoa. A atriz precisou levar cerca de 50 pontos e passou por cirurgia plástica após quase perder um dos olhos.
Já Noel Marshall foi mordido diversas vezes ao longo das filmagens. Em um dos acidentes, quase perdeu um braço. Em outro, sofreu ferimentos graves no rosto e no peito, desenvolvendo complicações como septicemia e gangrena.
Tippi Hedren também ficou ferida durante a produção. Ela foi mordida por um leão na cabeça, sofreu uma lesão no tornozelo após ser levantada por um elefante e ainda foi atacada por outros grandes felinos durante as gravações.

O caso mais grave envolveu o diretor de fotografia Jan de Bont, que teve parte do couro cabeludo arrancada após ser mordido por um leão e precisou receber mais de 220 pontos.
E, fechando com chave de ouro, uma enchente destruiu parte da estrutura do set, rompeu jaulas e permitiu a fuga de diversos leões e tigres.
Fracasso nos cinemas
Apesar do enorme investimento, “Roar” teve um desempenho muito abaixo do esperado nas bilheterias.
O longa arrecadou apenas cerca de US$ 2 milhões, tornando-se um fracasso comercial. Com o passar dos anos, porém, ganhou fama justamente pelos bastidores caóticos e passou a ser considerado por muitos como o filme mais perigoso já produzido.
No relançamento realizado em 2015, a divulgação utilizou um slogan que resume a história da produção:
“Nenhum animal foi ferido durante as gravações deste filme. Setenta pessoas do elenco e da equipe foram.”
Mudança de opinião e defesa dos animais
Depois da experiência, Tippi Hedren mudou completamente sua visão sobre manter grandes felinos como animais de estimação.
Quando concedeu a entrevista ao Daily Mail, em 2014, ela já dirigia o santuário Reserva Shambala, na Califórnia, dedicado ao acolhimento de grandes felinos, e defendia publicamente que esses animais permanecessem em ambientes apropriados.
A atriz passou a criticar duramente a criação doméstica de leões, tigres e outros predadores.












