O ministro das Relações Exteriores, Mauro Vieira - Foto: Zeca Ribeiro / Câmara dos Deputados

O chanceler Mauro Vieira disse que o novo tarifaço de 25% sobre produtos brasileiros, anunciado ontem pelo governo norte-americano, se deu porque o governo Lula (PT) “não se curvou” às demandas do presidente Donald Trump.

Em pronunciamento, Vieira disse que as taxas são “procedimentos unilaterais” e que “não há justificativa”. “Claramente, o que incomoda ao governo dos Estados Unidos é o fato de o Brasil não ter se curvado às demandas irrazoáveis”, afirmou o chanceler. A medida passa a valer em 22 de julho para itens que não estejam na lista de exceções do órgão.

Desde o começo, o governo tem tratado o tarifaço como uma decisão política dos EUA, não econômica. O Pix foi citado mais de 20 vezes pelo relatório do USTR (Escritório de Representante de Comércio dos Estados Unidos) como uma das práticas comerciais “irrazoáveis” do Brasil que justificariam a sobretaxação. A ferramenta nunca esteve na mesa de negociação, diz o Planalto.

Vieira referendou os esforços de negociadores para tentar impedir a taxação. “O Brasil está negociando com os EUA desde o tarifaço original, em abril”, afirmou.

Esta foi a primeira declaração do governo à imprensa após a taxação. Vieira se reuniu com o presidente Lula e outros ministros da área econômica no Palácio do Planalto nesta manhã.

O chanceler chamou ainda a carta do secretário de Estado dos EUA, Marco Rubio, de “grosseira e arrogante”. Em publicação nas redes sociais, o secretário afirmou que o Brasil não realizou negociações de “boa-fé” e que a política econômica brasileira é ruim para a população dos dois países e que “no último ano, Lula colocou seu próprio ego à frente de fazer um acordo pelo bem-estar do povo brasileiro”.

“[As falas] são inaceitáveis, ofensivas ao povo brasileiro e ao governo brasileiro”, disse Vieira. “Rubio ataca, de forma grosseira e arrogante, o chefe de Estado de um país amigo.”

Vieira procurou rebater ainda alguns pontos práticos do documento norte-americano. “As alegações e declarações de autoridades americanas sobre o Pix são descabidas. O Pix é uma infraestrutura pública de pagamentos criada pelo Banco Central. e está disponível a todas as instituições que atuam no Brasil. Não é sério falar em competição desleal gerada pelo Pix. As acusações sobre desmatamento também são absurdas. Desde 2022, reduzimos significativamente o desmatamento na Amazônia e no Cerrado. Estes são apenas dois exemplos.”

Esta tem sido uma estratégia do governo. Mirando tanto o público interno quanto o empresariado externo, Lula tem tentado mostrar que as acusações norte-americanas não têm respaldo nos dados. “Não houve, portanto, racionalidade na aplicação destas tarifas”, disse Vieira.

“Todas as alegações dos norte-americanos para justificar aplicações de tarifas não têm lastro na realidade.” afirmou Chanceler Mauro Vieira, sobre tarifaço.

O tarifaço já era esperado. Em encontros com o MDIC (Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços) e o Itamaraty, o USTR, responsável pela proposta, se mostrou inflexível —tanto que o próprio governo já vinha descartando acordos.

O Planalto disse que pretende acionar a Lei da Reciprocidade, mas Vieira não tocou no assunto. Em comunicado, o governo disse que “repudia” a ação unilateral de Washington, a qual chama de “injustificada”.

Em sua fala, Vieira reforçou a “motivação política” da sobretaxação. “Tentativa de interferência no Poder Judiciário brasileiro”, disse, se referindo às declarações de Trump em relação ao processo contra o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL), que culminou na prisão dele.

“Não custa reiterar que os Estados Unidos acumularam US$ 424 bilhões em superávit de bens e serviços com o Brasil nos últimos 15 anos”, lembrou Vieira. Em 2025, 76% das importações originárias dos Estados Unidos entraram no Brasil sem pagar o custo de importação, incluindo oito dos dez principais produtos dos Estados Unidos.

Em comunicado ontem, o Planalto também acusou a família Bolsonaro de colaborar ativamente para a criação do tarifaço. A nota do governo chama os opositores de “falsos patriotas” que agiram por interesses eleitorais para prejudicar o país.

A investigação norte-americana começou após Donald Trump criticar processos contra Jair Bolsonaro. O republicano abriu a apuração comercial no ano passado sob a justificativa de reagir a uma suposta “caça às bruxas” contra o ex-presidente brasileiro.

*Com informações de Uol