Foto: Valter Campanato / Agência Brasil

Após os Estados Unidos recomendarem a taxação de produtos brasileiros, o presidente Lula (PT) afirmou hoje aos ministros para não aceitarem o tratamento que o governo de Donald Trump está impondo ao Brasil e que eles devem procurar alternativas no mercado internacional.

Lula voltou a criticar o secretário de Estado dos EUA, Marco Rubio, chamando-o de “latino-americano frustrado” e lembrando o envolvimento de embaixadores norte-americanos no golpe militar de 1964.

O presidente falou que o Brasil não deve ficar restrito às propostas norte-americanas. “Se ele [o presidente Donald Trump] não quer comprar, a gente vai vender para quem quiser comprar. A gente não vai ficar reclamando. Se não quiser investir aqui, nós vamos procurar outro”, declarou Lula, em reunião ministerial no Palácio do Planalto.

Os EUA propõem taxar alguns produtos brasileiros em até 37,5%, citando práticas comerciais “irrazoáveis” do Brasil como justificativa. Como mostrou o UOL, o governo brasileiro vê, no entanto, foco principal no Pix, citado mais de 20 vezes pelo relatório do USTR (Escritório do Representante Comercial dos Estados Unidos), que sugeriu a nova taxação.

Lula disse que cobrará uma resposta do norte-americano sobre os anúncios. “Não podemos aceitar o tratamento que os EUA deram ao Brasil”, reclamou aos ministros. “Vou mandar outra carta para o Trump para mostrar que eles estão errados, equivocados, estão induzindo o mundo a uma violência desnecessária.”

O presidente reclamou da forma como o governo norte-americano tem feito os anúncios. “Ninguém pode dizer que o Brasil se negou a negociar com os Estados Unidos. Desde o primeiro tuíte do presidente Trump, que é um comunicado avesso àquilo que a democracia e a civilidade exigem, que um presidente comunique o outro ou mande uma carta oficial para o outro”, criticou, referindo-se também ao anúncio do tarifaço no ano passado.

O principal incômodo de Lula é o timing da proposta. O anúncio se deu após quase um mês do encontro entre o presidente Lula e Trump na Casa Branca, quando foi prometido um grupo bilateral de trabalho para tentar chegar à resolução dos entraves em 30 dias. Desde então, só houve uma reunião e, para desgosto do governo brasileiro, foi anunciada uma proposta de um aumento, não de diminuição.

Pela primeira vez, Lula admitiu surpresa. “Eu saí de lá convencido de que a gente estava estabelecendo uma nova lógica no relacionamento com os Estados Unidos”, lamentou.

O presidente dos EUA, Donald Trump – Foto: Mike Segar / Reuters

Os EUA sugeriram também taxação extra de 12,5% por importação de mercadorias feitas com trabalho forçado. Segundo o relatório, a recomendação foi justificada por supostamente o Brasil não proibir legalmente a importação para o mercado doméstico de produtos feitos total ou parcialmente com trabalho forçado em outros países. O órgão também afirmou que o Brasil não fiscaliza de forma efetiva esse tipo de entrada de mercadorias.

Latino-americano frustrado e golpe de 64

Lula voltou a atacar o secretário de Estado norte-americano, Marco Rubio. “Ele não gosta da América Latina e menos ainda do Brasil. É um latino-americano frustrado”, afirmou o presidente. Ele já havia criticado ontem o braço direito de Trump. Lula citou nesta quarta declaração de Rubio em que ele exaltou a proximidade de países latinos alinhados a Washington na coalização Escudo das Américas, do qual o Brasil não faz parte. O petista lembrou então do envolvimento de embaixadores norte-americanos no golpe de 64. “Importante que eles saibam que queremos construir a narrativa verdadeira.”

Sem ser nomeado, o senador Flávio Bolsonaro (PL) voltou a ser chamado de “traidor da pátria” e “imbecil”. “Estão tentando trair o Brasil com interesses mesquinhos, rasteiros, de uma disputa eleitoral —e não há disputa eleitoral em qualquer país do mundo que possa dar valor a alguém que trai a pátria, alguém capaz de vender o seu país por interesses mesquinhos dele”, disse o presidente. Segundo Lula, o objetivo dos adversários é prejudicar sua pré-candidatura à reeleição.

Ele disse que decidiu ir à cúpula do G7 para debater o assunto. Lula geralmente vai como convidado, dado que o Brasil não faz parte do grupo, mas, à princípio não ia por ser ano eleitoral. Neste ano, o encontro será realizado em Évian-les-Bains, na França, entre 15 e 17 de junho.

Esta é a primeira reunião ministerial com os “novos” ministros. “É uma arrumação de discurso pra todo mundo, ninguém tem que ter medo de nada”, declarou o presidente.

*Com informações de Uol