Flávio Bolsonaro e Eduardo Bolsonaro visitaram o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, na Casa Branca na última semana de maio - Foto: Eduardo Bolsonaro via Facebook

O governo federal reagiu à conclusão preliminar da investigação comercial conduzida pelos Estados Unidos contra o Brasil. Em nota divulgada nesta terça-feira, 2, o Palácio do Planalto afirmou receber com “indignação” a decisão anunciada pelo Escritório do Representante de Comércio dos Estados Unidos (USTR), que propôs uma tarifa adicional de 25% sobre diversos produtos brasileiros após apontar supostas práticas comerciais consideradas prejudiciais aos interesses norte-americanos.

“Não havia e não há justificativa para essas medidas unilaterais contra o nosso país ou contra patrimônios brasileiros como o PIX, mencionado explicitamente nas recomendações preliminares”, diz a nota.

No comunicado, o governo também atribuiu a abertura da investigação à atuação de aliados do ex-presidente Jair Bolsonaro nos Estados Unidos e afirmou que as negociações conduzidas entre os governos de Luiz Inácio Lula da Silva e Donald Trump estariam sendo prejudicadas por interesses políticos.

“Essa investigação teve início em 15 de julho de 2025 por provocação da família Bolsonaro e está associada à tentativa de ingerência em temas internos do nosso país, como feito na recente viagem do senador Flávio Bolsonaro a Washington. Essas investidas têm contado com o auxílio de falsos patriotas que usam cargos e funções públicas para conspirar contra os interesses nacionais. É lastimável que todo o trabalho de diálogo e articulação que o governo brasileiro tem feito, inclusive com o envolvimento pessoal dos presidentes Lula e Trump, seja sabotado por interesses meramente eleitorais e familiares”.

O texto ainda destaca que as conversas bilaterais seguem em andamento para tentar evitar a adoção das medidas até o prazo previsto para 15 de julho. Além disso, a nota defende a relação comercial entre os dois países, lembrando o superávit comercial nas trocas com o Brasil há mais de uma década e a baixa tarifa, de apenas 3,1%, cobrada sobre produtos norte-americanos.

“Segundo estatísticas do Bureau of Economic Analysis, os Estados Unidos acumularam US$ 424,5 bilhões em superávit de bens e serviços com o Brasil nos últimos 15 anos (2011-2025). Só no ano passado, o superávit comercial de bens dos Estados Unidos com o Brasil totalizou US$ 14,46 bilhões. Considerando bens e serviços, a cifra sobe para US$ 40,52 bilhões. Em 2025, 76% das importações originárias dos Estados Unidos entraram no Brasil sem pagar imposto de importação. Oito dos dez principais produtos importados dos Estados Unidos pelo Brasil tiveram tarifa efetiva zero, incluindo petróleo e derivados, aeronaves, gás natural e carvão”, segue o texto.

Possível reação brasileira à proposta de tarifas dos EUA

Caso considere que houve medidas injustificadas contra o país, o governo brasileiro diz que se reserva o direito de utilizar os mecanismos previstos na Lei da Reciprocidade Econômica, aprovada por unanimidade pelo Congresso Nacional, para “fazer face às situações de injustiça contra o Estado brasileiro, sem amparo nas regras do comércio internacional”.

“O governo reafirma a expectativa de que as recomendações não se convertam em tarifas efetivas, mas reitera que adotará a toda e qualquer medida capaz de reduzir os danos que venham a ser causados à economia, aos empregos e à renda dos brasileiros”, continua a nota. “É preciso estar atento aos traidores da pátria e trabalhar em defesa da soberania e dos nossos interesses do povo brasileiro”.

Donald Trump e Luiz Inácio Lula da Silva – Foto: Fotos: Ricardo Stuckert / PR

Novo tarifaço de Trump

A investigação conduzida pelo Escritório do Representante de Comércio dos Estados Unidos (USTR) concluiu preliminarmente que determinadas políticas e práticas adotadas pelo Brasil seriam “irracionais” ou prejudicariam o comércio norte-americano. Com base nesse entendimento, o governo Donald Trump propôs uma tarifa adicional de 25% sobre diversos produtos brasileiros, medida que ainda passará por consulta pública e audiência antes de uma decisão final.

Um dos principais pontos levantados pelos americanos envolve o PIX e os serviços de pagamentos eletrônicos. O USTR afirma que o Brasil favoreceria sistemas de pagamento desenvolvidos pelo próprio governo, em detrimento de empresas estrangeiras que atuam no mesmo segmento. A avaliação é contestada por especialistas.

Outro tema citado é o chamado comércio digital. O governo americano questiona decisões da Justiça brasileira envolvendo plataformas digitais e redes sociais, alegando que empresas dos Estados Unidos teriam sido submetidas a restrições, ordens judiciais e penalidades consideradas excessivas.

Outros pontos levantados incluem supostas falhas no combate à corrupção, na proteção à propriedade intelectual, no acesso do etanol americano ao mercado brasileiro e no enfrentamento ao desmatamento ilegal. O governo Trump argumenta que esses fatores impactam interesses comerciais dos Estados Unidos.

Apesar da proposta de tarifa, diversos produtos brasileiros ficariam de fora da medida, entre eles café, carne bovina, fertilizantes, produtos farmacêuticos, aeronaves, peças aeronáuticas, terras raras, petróleo e derivados.

*Com informações de Terra