Com participação de parlamentares, ideia foi debatida durante 4ª sessão principal do FIB16, em Belém (PA), evento que reuniu público de 1.494 participantes, entre espectadores presenciais e online - Foto: Assessoria

No 16º Fórum da Internet no Brasil (FIB 16), em Belém (PA), o debate sobre o papel do Congresso Nacional na regulação da Inteligência Artificial (IA), dados e plataformas propôs uma reflexão sobre como o país pode construir regras capazes de equilibrar inovação tecnológica, desenvolvimento econômico e proteção de direitos. A partir do entendimento de que as tecnologias digitais deixaram de ser apenas ferramentas de comunicação e passaram a influenciar diretamente aspectos centrais da vida social, econômica e política, questões como transparência algorítmica, privacidade, segurança da informação e mitigação de riscos sistêmicos figuram entre os principais desafios para governos, instituições e sociedade civil em diferentes partes do mundo.

Nesse contexto, também ganharam destaque reflexões sobre soberania digital e o papel estratégico que o Brasil pretende ocupar diante da crescente concentração de poder nas grandes empresas de tecnologia.

Durante o debate, a deputada federal Luizianne Lins (Rede – CE) defendeu que a regulação da IA precisa ser tratada como uma pauta coletiva e estratégica. “Governança digital não é uma pauta de especialistas. É uma pauta de toda a sociedade”, afirmou. Para a parlamentar, a discussão envolve diretamente democracia, economia, direitos e controle da informação em um cenário em que plataformas digitais e sistemas automatizados influenciam decisões cotidianas, relações de trabalho e até processos políticos.

A preocupação com a soberania tecnológica também apareceu na fala do deputado federal Jadyel Alencar (Republicanos – PI), relator do Projeto de Lei que deu origem à Lei 15.211/2025, conhecida como ECA Digital. Segundo ele, o Brasil precisa avançar para além da condição de consumidor de tecnologia. “Já passou da hora de o Brasil deixar de ser apenas consumidor de todos esses produtos digitais, todas essas tecnologias, e passar a ser, na realidade, construtor”, declarou. A observação dialoga diretamente com a defesa feita por Luizianne de que “regular, portanto, é defender a soberania nacional”.

A coordenadora do CGI.br e assessora especial do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI), Renata Mielli, destacou a importância da participação multissetorial na formulação de políticas públicas para o ambiente digital. “O Comitê Gestor da Internet tem que ser este espaço de busca multissetorial”, afirmou. Segundo ela, o CGI.br vem atuando há anos na construção de subsídios técnicos e políticos para debates legislativos ligados à Internet, proteção de dados, plataformas digitais e Inteligência Artificial.

Renata também chamou atenção para a velocidade das transformações tecnológicas e os desafios impostos ao processo regulatório. “Os ciclos de desenvolvimento da tecnologia estão cada vez mais curtos”, disse. Para ela, governos, instituições e sociedade têm sido pressionados a responder em tempo cada vez menor aos impactos produzidos por tecnologias “cada vez mais pervasivas, mais disruptivas, com impactos cada vez mais severos”.

Representando o setor empresarial, o conselheiro do CGI.br Henrique Faulhaber avaliou que o debate sobre regulação digital no Brasil amadureceu nos últimos anos e passou a se concentrar na construção de mecanismos efetivos de implementação. “A gente não está mais falando sobre se deve regular ou não, está falando agora sobre como é que a gente vai regular e como é que vai fazer para que essa regulação seja efetiva”, afirmou. Na avaliação dele, a construção de regras claras e equilibradas tornou-se condição essencial para garantir segurança jurídica e desenvolvimento tecnológico no ambiente digital.

As abordagens também convergiram na defesa de uma regulação construída a partir do diálogo entre diferentes setores da sociedade e baseada em critérios técnicos. Luizianne destacou que “a pressão das grandes empresas de tecnologia foi real e foi documentada” durante a tramitação do projeto de regulamentação da Inteligência Artificial. Já Jadyel reforçou a necessidade de um processo legislativo conectado à realidade do setor produtivo e da sociedade. “Não basta regular, tem que regular com qualidade, tem que regular com responsabilidade”, afirmou.

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Ao discutir os desafios da construção regulatória, Renata Mielli alertou para os riscos de projetos formulados sem aprofundamento técnico adequado. Na mesma linha, Henrique Faulhaber defendeu maior clareza regulatória e segurança jurídica. “Os princípios são importantes, mas na hora em que a gente vai ao nível da regulação, os princípios não são suficientes, eu tenho que ter diretrizes claras”, declarou.

O pesquisador e codiretor da Data Privacy Brasil, Rafael Zanatta, também destacou que a regulação digital exige processos democráticos capazes de lidar com a complexidade técnica e política das tecnologias digitais. “Direito digital não é tema fácil de se pensar e muito menos de se regular”, enfatizou. Segundo ele, a construção regulatória precisa considerar as assimetrias de poder presentes no ambiente digital, especialmente diante da crescente influência econômica e política das grandes plataformas tecnológicas.

Ao abordar o atual cenário internacional, Zanatta alertou para o fortalecimento do lobby corporativo sobre os processos regulatórios. “As virtudes democráticas estão em risco.” Para ele, o aumento da influência direta das Big Techs sobre governos e processos legislativos representa um desafio para a tradição democrática construída no Brasil em debates como o Marco Civil da Internet e a Lei Geral de Proteção de Dados. “As grandes empresas se comportando praticamente como Estados nacionais assumem um papel geopolítico”, declarou.

Outro ponto central da discussão foi o risco de reprodução de desigualdades históricas por sistemas automatizados. Ao abordar racismo algorítmico, misoginia digital e exclusão social, Luizianne afirmou que “algoritmos não são neutros” e alertou para os impactos da ausência de mecanismos de controle e transparência sobre plataformas digitais e sistemas de Inteligência Artificial. Nesse contexto, ela citou a Lei Lola (Lei 13.642/2018), criada para atribuir à Polícia Federal a investigação de crimes de misoginia praticados na Internet, como exemplo da necessidade de atualização da legislação diante das novas formas de violência digital. O debate reforçou a percepção de que, sem regulação, a tecnologia automatiza discriminações históricas já presentes na sociedade.

Além disso, também destacou a importância de criar condições para o fortalecimento da inovação nacional. Para Jadyel, o Brasil precisa investir em pesquisa, startups e desenvolvimento tecnológico próprio sem olhar para a tecnologia apenas pela perspectiva do risco. A defesa de uma política de desenvolvimento tecnológico alinhada à realidade brasileira também apareceu na fala de Henrique Faulhaber, que avaliou que os projetos de regulação precisam caminhar junto de políticas de incentivo à indústria nacional e às universidades.

Ao tratar do fortalecimento da democracia digital, Rafael Zanatta ressaltou ainda a importância da sociedade civil, da pesquisa e da comunicação no acompanhamento dos processos regulatórios. “O jornalismo precisa estar dentro do escopo da proteção de um ecossistema informacional justo”, afirmou. Segundo ele, o avanço da desinformação e a circulação de campanhas contra legislações digitais mostram que os desafios da governança da Internet não terminam com a aprovação das leis.

Ao relacionar a realização do FIB16 na capital paraense com as discussões globais sobre clima e desenvolvimento sustentável, Luizianne destacou ainda que “Belém é a Amazônia, biodiversidade, sabedoria ancestral, a prova de que esses sistemas complexos sobrevivem quando há equilíbrio e entram em colapso quando há extração sem limites”. A fala aproximou o debate sobre Inteligência Artificial das pautas ambientais e reforçou que a expansão da infraestrutura digital também produz impactos concretos sobre territórios, recursos naturais e populações.

Ao longo da programação, o multissetorialismo apareceu como elemento central do debate, reforçando a ideia de que os desafios da governança digital exigem diálogo permanente entre Congresso, academia, setor produtivo, comunidade técnica e sociedade civil.

O debate também apontou que a construção de uma regulação para a Inteligência Artificial no Brasil passa diretamente pela definição de um projeto de país, envolvendo soberania tecnológica, proteção de direitos, segurança jurídica e desenvolvimento econômico em um ambiente digital cada vez mais presente na vida cotidiana.

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Destaque da manhã

Outro destaque do último dia de programação do FIB16 foi o debate “Todos Podem Ser Alvo de Ransomware: Medidas Básicas Fazem a Diferença na Redução de Impactos”. Com o aumento desse tipo de ciberataque e a crescente dependência de dados para manter operações, serviços e relações com clientes, a segurança digital tornou-se um dos principais desafios para organizações de todos os setores. A sessão técnica abordou o assunto e medidas básicas de segurança, aliadas à detecção precoce e a protocolos eficientes de contenção, podem reduzir significativamente riscos operacionais, prejuízos financeiros e danos à reputação institucional.

Sobre o FIB16

O Fórum da Internet no Brasil registrou ampla participação e forte engajamento do público, consolidando-se como um importante espaço de troca de saberes sobre os desafios e oportunidades do ambiente digital no Brasil. Ao todo, o evento promoveu 55 atividades e reuniu 1.494 participantes, sendo 1.128 presenciais e 366 acompanhando a programação de forma online, demonstrando o alcance nacional das discussões e o interesse crescente de diferentes setores da sociedade em temas ligados à governança da Internet, Inteligência Artificial, proteção de dados e transformação digital. Para saber mais, acesse: fib.cgi.br. Toda a programação do FIB16 está disponível no canal: https://www.youtube.com/nicbrvideos.