Celebrado nesta terça-feira (14 de abril), o Dia Mundial do Café reforça a importância de uma das bebidas mais consumidas no Brasil e no mundo - Foto: Enrique Alves / Embrapa

Em Rondônia, na fronteira entre Amazônia e Cerrado, um grão antes visto como “amargo” está ganhando protagonismo nas xícaras e nos debates sobre clima. O robusta amazônico, cultivado por povos indígenas e pequenos produtores. Mais adaptado ao calor do que o arábica, ele desponta como peça estratégica para manter a oferta global de café em um cenário de temperaturas em alta e eventos extremos cada vez mais frequentes.

Dentro da Terra Indígena Sete de Setembro, entre Rondônia e Mato Grosso, o café não nasceu como tradição ancestral, mas como herança incômoda. As primeiras lavouras foram deixadas por colonos e invasores que ocuparam a região antes da demarcação, trazendo consigo desmatamento, violência e ruptura territorial.

Diante desse legado, parte do povo Paiter Suruí quis arrancar os pés de café. Outra parte viu ali uma oportunidade de ressignificar a cultura e transformar a plantação em fonte de renda. E de proteção da floresta. Ao longo dos anos, com capacitações técnicas e parcerias, os indígenas aprenderam a manejar, fermentar e beneficiar o grão, elevando a qualidade da bebida e conquistando mercados de maior valor agregado.

Hoje, cerca de 130 a 140 famílias Paiter Suruí produzem robusta amazônico em pequenas áreas, em um território de mais de 248 mil hectares, onde o modo de vida tradicional segue ligado à floresta e ao extrativismo. O grão cultivado ali já foi reconhecido como patrimônio cultural e imaterial de Rondônia. E vem se consolidando como um café de origem, com identidade própria.

Robusta em alta em um planeta mais quente

Historicamente, o robusta foi visto como um café de menor prestígio, associado a blends baratos e a uma bebida mais áspera. Isso quando comparado ao arábica. Mas a combinação entre ciência, manejo adequado e clima mais quente está mudando essa percepção, dentro e fora do Brasil.

Pesquisas mostram que o robusta tolera temperaturas mais elevadas do que o arábica. E tende a ter papel crucial na manutenção da oferta, à medida que áreas adequadas para café encolhem com o avanço da crise climática. Entre o início dos anos 1990 e 2023, a participação do robusta no total produzido no mundo subiu de cerca de 28% para algo em torno de 44%. Este movimento foi impulsionado principalmente por Brasil, Vietnã e países da Ásia e da África.

Ao mesmo tempo, relatórios recentes indicam que os principais países produtores já enfrentam mais dias de calor prejudicial à cultura do café, aumento de secas e maior pressão de pragas e doenças. Em cenários projetados até 2050, a área global com condições ideais para o cultivo de café, tanto arábica quanto robusta, pode cair pela metade ou mais, dependendo do nível de aquecimento e de adaptação tecnológica.

Embrapa, genética e manejo de precisão

No Brasil, a resposta passa por pesquisa genética, sistemas produtivos mais eficientes e integração com a floresta. Em duas décadas, programas da Embrapa e de instituições parceiras multiplicaram a produtividade do robusta, combinando materiais genéticos de conilon e robusta em cruzamentos voltados para maior rendimento, tolerância a calor e seca e aprimoramento sensorial.

Cafeicultura em terras indígenas é sustentável e gera renda para essas comunidades – Foto: Aliny Melo / Embrapa

Hoje, dezenas de novos cruzamentos estão em teste em Rondônia e em outras regiões, buscando plantas mais resilientes a extremos climáticos, com melhor xícara e maior estabilidade de produção. Ao lado da genética, pesquisadores e técnicos reforçam que o salto de qualidade depende de colheita seletiva, pós-colheita cuidadosa e secagem adequada, práticas que podem transformar um robusta genérico em um robusta especial.

Outro eixo é o manejo integrado com árvores e fragmentos florestais, que ajudam a regular temperatura, manter umidade, favorecer polinizadores e controlar pragas de forma natural. Esse desenho, mais próximo de sistemas agroflorestais, ganha destaque justamente na Amazônia, onde a pressão por abertura de áreas para pecuária ainda é forte.

Pequenas propriedades mostram o caminho

Na região das Matas de Rondônia, selo de Indicação Geográfica concedido ao território de cafés robusta de qualidade, cerca de 10 mil propriedades cultivam café, em sua maioria pequenas e conduzidas por famílias. Apesar de o café ocupar menos de 1% da área em alguns municípios, a cultura tem servido como alternativa à conversão de floresta em pasto quando associada a boas práticas ambientais.

Um exemplo citado por técnicos e entidades do setor é o de famílias que adotam irrigação mais eficiente, plantio de árvores para proteger nascentes, criação de abelhas para reforçar a polinização e rotação de culturas com milho, feijão e outras espécies para recuperar o solo. Com esse modelo, é possível gerar renda significativa em poucos hectares, reduzindo a pressão por desmatamento e agregando valor via turismo rural, visitas guiadas e venda direta.

Entre os Paiter Suruí, o robusta amazônico também já levou prêmios nacionais e internacionais. Incluindo notas máximas em protocolos específicos para avaliação de canephora e destaque em concursos de cafés especiais. O resultado é um produto que carrega, ao mesmo tempo, narrativa de território, conservação florestal e protagonismo indígena em cadeias de valor antes dominadas por grandes produtores.

Risco de monocultura e desafio da escala

O avanço do robusta, porém, não vem sem riscos. Especialistas e lideranças indígenas alertam que preços em alta podem estimular a expansão de monoculturas em larga escala. Portanto, substituindo sistemas diversificados de pequenos produtores por grandes áreas contínuas de café, com maior impacto ambiental.

Sem políticas públicas que valorizem quem mantém floresta em pé, o robusta pode se tornar vetor de novo ciclo de desmatamento em áreas amazônicas e de transição, caso seja tratado apenas como commodity de curto prazo. Daí a defesa por incentivos fiscais, crédito diferenciado e programas de compras públicas que priorizem café de origem sustentável, com rastreabilidade e participação de comunidades tradicionais.

Outra frente é a mudança cultural no consumo. Pesquisadores e baristas vêm construindo uma nova gramática sensorial para o canephora, com rodas de aromas e sabores específicas, argumentando que robusta e conilon devem ser avaliados em seus próprios termos, e não pela régua do arábica. Isso abre espaço para que mercados especializados e cafeterias passem a apresentar o robusta não como “segunda categoria”, mas como um outro perfil de bebida.

Iniciativas globais e papel do Brasil

A preocupação com o futuro do café também mobiliza redes internacionais de pesquisa. A World Coffee Research (WCR) ampliou recentemente seu programa de melhoramento para incluir robusta em uma rede global de países como Vietnã, Gana, Índia, Indonésia, Ruanda e Uganda. Eles responsáveis por grande parte da produção mundial dessa espécie.

O objetivo é testar materiais genéticos em diferentes condições de solo e clima, acelerar o desenvolvimento de variedades mais produtivas e resistentes e compartilhar dados entre instituições. Esse esforço vem ganhando peso à medida que o café se torna símbolo da vulnerabilidade da agricultura à crise climática. E ao mesmo tempo, campo de prova para estratégias de adaptação.

No Brasil, pesquisadores, agricultores e lideranças indígenas destacam que o país, maior produtor de café do mundo, tem oportunidade de liderar uma transição para sistemas que combinem robusta de alta qualidade com conservação de florestas e valorização de produtos não madeireiros, como castanha-do-brasil, açaí, cacau e outras espécies nativas. Esses produtos ainda representam fatia muito pequena do PIB nacional, mas são apontados como caminho para uma economia florestal de longo prazo.

A floresta, o café e quem vive nela

Para os Paiter Suruí e outras comunidades amazônicas, o café é hoje mais do que uma mercadoria: é uma ferramenta de afirmação territorial. Ao transformar cafezais herdados de invasores em lavouras de robusta amazônico de alta qualidade, eles mostram que é possível gerar renda mantendo a floresta em pé e ampliando o reconhecimento de seus conhecimentos tradicionais.

Lideranças indígenas lembram, contudo, que não se pode falar em futuro do café na Amazônia sem falar em quem vive dentro da floresta. A mensagem é clara: o grão robusta pode ser mais resistente ao calor, mas a verdadeira robustez do sistema depende de políticas públicas, consumo responsável e da capacidade de ouvir, e remunerar, os povos que há séculos manejam esses territórios.

*Com informações de Agro em Campo