
Em Rondônia, na fronteira entre Amazônia e Cerrado, um grão antes visto como “amargo” está ganhando protagonismo nas xícaras e nos debates sobre clima. O robusta amazônico, cultivado por povos indígenas e pequenos produtores. Mais adaptado ao calor do que o arábica, ele desponta como peça estratégica para manter a oferta global de café em um cenário de temperaturas em alta e eventos extremos cada vez mais frequentes.
Dentro da Terra Indígena Sete de Setembro, entre Rondônia e Mato Grosso, o café não nasceu como tradição ancestral, mas como herança incômoda. As primeiras lavouras foram deixadas por colonos e invasores que ocuparam a região antes da demarcação, trazendo consigo desmatamento, violência e ruptura territorial.
Diante desse legado, parte do povo Paiter Suruí quis arrancar os pés de café. Outra parte viu ali uma oportunidade de ressignificar a cultura e transformar a plantação em fonte de renda. E de proteção da floresta. Ao longo dos anos, com capacitações técnicas e parcerias, os indígenas aprenderam a manejar, fermentar e beneficiar o grão, elevando a qualidade da bebida e conquistando mercados de maior valor agregado.
Hoje, cerca de 130 a 140 famílias Paiter Suruí produzem robusta amazônico em pequenas áreas, em um território de mais de 248 mil hectares, onde o modo de vida tradicional segue ligado à floresta e ao extrativismo. O grão cultivado ali já foi reconhecido como patrimônio cultural e imaterial de Rondônia. E vem se consolidando como um café de origem, com identidade própria.
Robusta em alta em um planeta mais quente
Historicamente, o robusta foi visto como um café de menor prestígio, associado a blends baratos e a uma bebida mais áspera. Isso quando comparado ao arábica. Mas a combinação entre ciência, manejo adequado e clima mais quente está mudando essa percepção, dentro e fora do Brasil.
Pesquisas mostram que o robusta tolera temperaturas mais elevadas do que o arábica. E tende a ter papel crucial na manutenção da oferta, à medida que áreas adequadas para café encolhem com o avanço da crise climática. Entre o início dos anos 1990 e 2023, a participação do robusta no total produzido no mundo subiu de cerca de 28% para algo em torno de 44%. Este movimento foi impulsionado principalmente por Brasil, Vietnã e países da Ásia e da África.
Ao mesmo tempo, relatórios recentes indicam que os principais países produtores já enfrentam mais dias de calor prejudicial à cultura do café, aumento de secas e maior pressão de pragas e doenças. Em cenários projetados até 2050, a área global com condições ideais para o cultivo de café, tanto arábica quanto robusta, pode cair pela metade ou mais, dependendo do nível de aquecimento e de adaptação tecnológica.
Embrapa, genética e manejo de precisão
No Brasil, a resposta passa por pesquisa genética, sistemas produtivos mais eficientes e integração com a floresta. Em duas décadas, programas da Embrapa e de instituições parceiras multiplicaram a produtividade do robusta, combinando materiais genéticos de conilon e robusta em cruzamentos voltados para maior rendimento, tolerância a calor e seca e aprimoramento sensorial.













