O presidente Donald Trump durante encontro com o israelense Binyamin Netanyahu, no Salão Oval da Casa Branca - Foto: Kevin Mohatt / Reuters

A decisão do presidente Donald Trump de retirar os Estados Unidos da UNFCCC (Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Mudança do Clima) e do IPCC (Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas) provocou reação imediata da ONU, da União Europeia e de especialistas internacionais, que veem na medida um duro golpe à liderança americana e à cooperação global contra a crise climática.

O secretário-executivo da UNFCCC, Simon Stiell, foi o mais enfático ao classificar a saída dos EUA como um erro grave com consequências diretas para o próprio país. “É um gol contra colossal que deixará os Estados Unidos menos seguros e menos prósperos”, afirmou em comunicado. Segundo ele, a decisão “apenas prejudicará a economia, o emprego e o nível de vida dos americanos”, ao afastar o país das cadeias de investimento, inovação e crescimento ligadas à transição energética.

A retirada foi formalizada por meio de um memorando presidencial assinado na quarta-feira, no qual Trump determinou o desligamento dos EUA de 66 organizações e tratados internacionais — cerca de metade ligados às Nações Unidas — sob o argumento de que seriam “contrários aos interesses nacionais”. Entre eles estão a UNFCCC, base jurídica dos principais acordos climáticos globais, incluindo o Acordo de Paris, e o IPCC, órgão responsável por avaliar e consolidar a ciência do clima.

Com a decisão, os Estados Unidos se tornam o único país-membro da ONU fora da UNFCCC, o que, segundo críticos, isola Washington em um momento crucial da agenda climática global. Para David Widawsky, do World Resources Institute, trata-se de “um erro estratégico que desperdiça a vantagem americana sem obter nada em troca”. “Abandonar a UNFCCC não apenas marginaliza os EUA, como os exclui completamente do processo internacional”, afirmou.

A reação europeia foi igualmente dura. A vice-presidente-executiva da Comissão Europeia para a Transição Limpa, Teresa Ribera, disse que a decisão mostra que “a Casa Branca não se importa com o meio ambiente, a saúde ou o sofrimento das pessoas”. Já o comissário europeu de Clima, Wopke Hoekstra, classificou a saída como “lamentável e infeliz”, lembrando que a UNFCCC “fundamenta a ação climática global” e a cooperação entre países. Segundo ele, a União Europeia seguirá apoiando a pesquisa científica internacional e a diplomacia climática.

Nos Estados Unidos, a medida também gerou críticas internas. O governador da Califórnia, Gavin Newsom, afirmou que Trump está “cedendo a liderança global dos EUA” e abrindo espaço para a China. “Criar esse vácuo de liderança é um presente para Pequim”, disse. Embora seja o maior emissor de gases de efeito estufa, a China também lidera investimentos em energias renováveis e tecnologias limpas.

Além da UNFCCC e do IPCC, o memorando prevê a saída dos EUA de outras entidades ligadas ao clima e ao desenvolvimento sustentável, como a Agência Internacional de Energia Renovável (IRENA), a ONU Oceanos e a ONU Água. O Departamento do Tesouro também anunciou a retirada americana do Fundo Verde para o Clima, o maior mecanismo multilateral de financiamento climático do mundo.

Desde o início de seu segundo mandato, Trump tem aprofundado a política de distanciamento das instituições multilaterais. Assim como fez em seu primeiro governo, retirou os EUA do Acordo de Paris, da Unesco e anunciou a saída da Organização Mundial da Saúde, além de cortar drasticamente a ajuda externa americana, afetando diretamente o orçamento e as operações de diversas agências da ONU.

Para Simon Stiell, o impacto vai além da diplomacia. Ao deixar os principais fóruns climáticos, os EUA perdem a capacidade de influenciar regras, mercados e oportunidades econômicas ligadas à transição para uma economia de baixo carbono. “Mesmo além do imperativo moral de enfrentar a mudança do clima, estar à mesa dessas negociações significa moldar políticas e acessar oportunidades econômicas maciças”, alertam especialistas.

*Com informações de Uol