
Um estudo demonstra pela primeira vez com alto grau de precisão estatística que o aquecimento global está avançando mais rápido. A taxa de aumento na temperatura da Terra quase dobrou na última década, diz o artigo.
A partir de 1970, ao longo de mais de 40 anos, o índice de elevação era constante, de cerca de 0,2°C por década. De 2014 em diante, no entanto, a taxa passou para, em média, 0,35°C por década.
Se o ritmo se mantiver, os autores afirmam que o limite de 1,5°C de aquecimento acima dos níveis pré-industriais (período de 1850 a 1900) definido pelo Acordo de Paris será ultrapassado em poucos anos, até 2030 —intensificando ainda mais eventos climáticos extremos e levando a perdas catastróficas.
A pesquisa é de dois cientistas do renomado Instituto Potsdam para Pesquisa do Impacto Climático (conhecido pela sigla PIK), na Alemanha, e foi publicada na revista Geophysical Research Letters.
A aceleração da mudança climática vinha sendo debatida nos últimos anos pela comunidade científica. Estudos anteriores chegaram a apontar essa tendência, mas com uma margem de erro que tornava os resultados estatisticamente insignificantes, dizem os autores.
Agora, foram analisados cinco prestigiados conjuntos de dados da temperatura global: Nasa (agência espacial dos Estados Unidos), Noaa (agência dos EUA de ciência climática), HadCRUT (sistema do instituto nacional de meteorologia britânico), Berkeley Earth (instituto climático sem fins lucrativos) e ERA5 (do observatório climático europeu Copernicus).
Para contornar a incerteza de pesquisas anteriores, os pesquisadores do PIK descontaram a influência estimada de eventos de El Niño, erupções vulcânicas e variações solares dos índices de temperatura, deixando o cenário mais claro.
“Nós reduzimos o ‘ruído’ removendo esses fatores de variabilidade de curto prazo”, explica o climatologista Stefan Rahmstorf, um dos autores da pesquisa. Essas flutuações naturais na temperatura global podem mascarar mudanças na taxa de aquecimento do planeta.

“Fiquei surpreso com o aumento repentino da taxa de aquecimento nos últimos dez anos. Era esperado um aumento mais gradual e lento, como previsto pelos modelos climáticos”, conta.
Nos cinco bancos de dados, a aceleração começa a se tornar aparente em 2013 ou 2014, com um aumento da taxa na última década que vai de 70% (HadCRUT) a 110% (ERA5).
O índice médio de 0,35°C de aquecimento é o mais alto registrado em qualquer década desde 1880, quando começa a série histórica dos dados analisados.
Os autores ressaltam que os ajustes que retiram os efeitos do El Niño e do máximo solar reduzem a temperatura global em 2024 e 2023 —demonstrando que a aceleração do aquecimento não se deve a anos atípicos, mas sim a uma tendência que vem desde 2015.
O estudo não examina as causas do ritmo acelerado da mudança climática, mas a principal hipótese, levantada por outras pesquisas, é a redução da quantidade de aerossóis na atmosfera.
Essas partículas derivadas da poluição prejudicam a saúde humana, mas também agem como uma barreira que reflete parte da luz solar de volta para o espaço. Isso faz com que tenham um efeito de resfriamento no planeta. Nos últimos anos, regras mais rígidas sobre poluição do ar, especialmente para o transporte marítimo e a indústria, diminuíram os índices de aerossóis na atmosfera.
Como combater essa situação
A solução para frear a mudança climática, acelerada ou não, é uma velha conhecida: reduzir as emissões de gases de efeito estufa das atividades humanas, vindas principalmente da queima de combustíveis fósseis e do desmatamento.
Muitos especialistas defendem que um corte significativo nas emissões de metano pode ser um atalho para reduzir rapidamente o ritmo do aquecimento. Esse gás é 80% mais potente como gás de efeito estufa do que o dióxido de carbono (CO2), mas tem uma vida bem mais curta na atmosfera —cerca de 20 anos, enquanto o CO₂ dura séculos.
Rahmstorf diz que essa estratégia pode ser uma solução mais rápida para tentar salvar a meta de 1,5°C do Acordo de Paris, mas acrescenta que cortar o gás carbônico continua sendo o fator dominante, devido à sua vida útil mais longa.













