
“Doutora, eu precisava do meu olho para o Natal.” São pedidos assim que a cirurgiã-dentista Roberta Stramandinoli Zanicotti ouve com a aproximação das festas de fim de ano, e a corrida é intensa para entregar desejos tão sensíveis.
Idealizadora do ambulatório de Prótese Facial Reconstrutiva do Hospital de Reabilitação do Paraná, ela trabalha ao lado da colega Camila Paloma para dar conta da demanda por peças de silicone que se adaptem perfeitamente ao rosto de quem sofre com a mutilação. A prótese sai com o tom de pele, a cor dos olhos, da íris e até as manchas da pele da pessoa.
“Mais de dez pacientes me mandaram mensagem perguntando se vão receber a prótese até o Natal. Eles desejam a invisibilidade, não ser o centro das atenções. Ninguém quer sentar à mesa com a família com uma cratera”, diz.
Desde a criação do serviço, que opera em Curitiba totalmente via SUS (Sistema Único de Saúde), em 2020, já foram realizados 1.500 atendimentos de pessoas com mutilações de face. Nem todos são elegíveis ao uso de prótese. Já foram entregues cerca de 200 próteses.
Das pessoas atendidas, cerca de 70% foi vítima de mutilações causadas pelo câncer e seu tratamento, e 30%, de traumas em acidentes.
Em consultórios particulares, o custo de peças de silicone para o rosto varia entre R$ 5.000 e R$ 10 mil. “A mesma qualidade que faço em meu consultório privado, faço aqui pelo SUS”, conta a cirurgiã-dentista.
Era uma naturalidade para o rosto que Marli Borges dos Santos, 59, de Irati (PR), buscava. “Todo mundo me olhava e alguns desviavam de mim na rua, como se tivesse uma doença contagiosa. Me sentia diminuída.” Foram sete anos assim, após um câncer agressivo que levou à amputação do nariz.
Ela chegou a tentar uma prótese feita em São Paulo, mas machucava a pele e desistiu de usar. Parou também de sair de casa. Quando viu uma reportagem na TV sobre o novo centro de próteses da face custeado pelo SUS, em Curitiba, conseguiu uma das primeiras vagas. Em apenas três meses, saiu de nariz novo.













