Bubbles, o chimpanzé de Michael Jackson, tem 43 anos, pesa 84 kg e virou artista na Flórida — (Foto: Reprodução/Steve Granitz)

Ele viajou o mundo em jatos particulares, dormiu em quartos de luxo e apareceu em capas de revista ao lado do maior popstar de todos os tempos. Bubbles, o chimpanzé de Michael Jackson, foi por anos um símbolo da excentricidade do Rei do Pop, tão famoso quanto qualquer celebridade humana da época. Hoje, aos 43 anos, ele vive uma realidade completamente diferente e, em muitos aspectos, muito mais adequada.

Longe dos holofotes, Bubbles está no Centro para Grandes Primatas (Center for Great Apes), em Wauchula, na Flórida. Pesa 84 kg, lidera um grupo de chimpanzés com calma e autoridade, e passou a se dedicar a uma atividade improvável para quem o conheceu filhote: pintura.

Do Rancho Neverland a um santuário na Flórida

A trajetória de Bubbles com Michael Jackson começou nos anos 1980, quando o cantor o adquiriu ainda filhote. Durante quase duas décadas, o chimpanzé foi tratado como um membro da família, acompanhando Jackson em turnês, eventos públicos e na vida cotidiana no Rancho Neverland.

No entanto, o que funcionava quando Bubbles era pequeno e dócil tornou-se insustentável com o tempo. Chimpanzés adultos são animais de força bruta, comportamento imprevisível e necessidades sociais complexas que nenhum ambiente doméstico consegue suprir. Em 2005, Bubbles foi transferido para o santuário na Flórida, onde chegou junto de outros primatas vindos da indústria do entretenimento, todos com histórias parecidas: criados por humanos, deslocados de sua natureza e precisando reconstruir uma vida entre os seus.

Artista, líder e cheio de personalidade

Dentro do santuário, Bubbles encontrou algo que o Neverland nunca pôde oferecer: identidade própria. Ele é descrito pela equipe do Centro para Grandes Primatas como um indivíduo de personalidade tímida, porém cativante, com um lado travesso que aparece nas horas mais inesperadas. Não é raro que ele surpreenda tratadores com jatos d’água ou uma pitada de areia, apenas por diversão.

Além disso, desenvolveu um talento genuíno para a pintura. Bubbles passa longos períodos criando obras coloridas e só as entrega quando considera que estão prontas. Essa característica revela algo que a ciência confirma sobre chimpanzés: são animais com vida mental rica, capazes de preferências estéticas e comportamentos que vão muito além do instinto básico.

Por outro lado, o papel social que ele construiu no grupo também chama atenção. Bubbles é o líder de um grupo que inclui Oopsie, Boma, Kodua e Stryker, e exerce essa liderança com equilíbrio, sem agressividade desnecessária.

Fake news e o alerta do santuário

Com o lançamento do filme biográfico Michael, o interesse por Bubbles voltou à tona nas redes sociais, mas trouxe consigo um problema sério: desinformação. Imagens circulando com o animal interagindo fisicamente com humanos são falsas, geradas por inteligência artificial. O santuário veio a público para esclarecer o caso e reforçar sua política.

Foto: Reprodução / Divulgação

“Como um santuário credenciado, o bem-estar dos primatas vem sempre em primeiro lugar. Não permitimos contato físico”, declarou a instituição em nota oficial.

Além disso, o Centro desmentiu boatos de que Jaafar Jackson, sobrinho de Michael e protagonista do filme, teria visitado Bubbles. Isso nunca aconteceu. O alerta é importante: a banalização do contato entre humanos e primatas em redes sociais alimenta uma cultura que prejudica diretamente o bem-estar desses animais e incentiva o tráfico de espécies silvestres.

Vale lembrar que o sustento de Bubbles continua garantido pelo espólio de Michael Jackson, que financia seus cuidados de forma vitalícia no santuário.

O que a vida de Bubbles ensina

No filme, o diretor Antoine Fuqua optou por representar Bubbles com CGI, sem usar nenhum animal real nas gravações. A decisão respeita não só o chimpanzé específico, mas sinaliza uma mudança de mentalidade na indústria do entretenimento em relação ao uso de animais silvestres como acessórios de celebridade.

Após 20 anos de vida tranquila em Wauchula, Bubbles se tornou, sem querer, um símbolo de outra natureza: o de que animais selvagens não pertencem a mansões, turnês ou tapetes vermelhos. Eles pertencem a espaços que respeitam o que são. Assim, o chimpanzé mais famoso da cultura pop finalmente encontrou o seu próprio Neverland, um lugar onde ele pode ser, simplesmente, um chimpanzé.

*Com informações de Agro em Campo