A Lua em registro feito a partir de Buenos Aires - Foto: Juan Mabromata / AFP

O administrador da Nasa, Jared Isaacman, anunciou a desistência de tentar levar humanos à superfície da Lua na Artemis 3 em 2027. O novo plano para essa missão é testar os módulos de pouso lunar em um voo em órbita baixa da Terra.

O objetivo de fazer com que humanos voltem a andar sobre o solo do satélite foi empurrado para a Artemis 4, programada para o início de 2028. Isaacman também falou sobre a intenção de um segundo pouso lunar nesse mesmo ano —a ideia seria ter um novo lançamento em um intervalo de dez meses.

No anúncio, Isaacman reforçou sua visão crítica à condução interna da Nasa e afirmou que a agência sabia que o cronograma atual não era adequado.

“Basicamente, vamos antecipar a Artemis 3 para lançamento em 2027 com um perfil de missão revisado. Então, em vez de ir diretamente para um pouso lunar, vamos nos empenhar em fazer um encontro em órbita baixa da Terra com um ou ambos os nossos módulos de pouso lunar, para testar operações integradas entre a Orion [a cápsula de tripulação] e o módulo de pouso”, afirmou o chefe da Nasa.

A Nasa também desistiu de atualizar seu foguete SLS (Space Launch System). Em vez disso, o plano é se concentrar no aumento da frequência de voos do veículo, que tem sido lenta em comparação com foguetes mais novos. A medida impacta o contrato de aproximadamente US$ 2 bilhões da Boeing para construir um estágio superior mais potente do SLS, cujo plano acabou cancelado.

Após comentar as falhas vistas até agora nas missões Artemis, Isaacman afirmou que uma forma de exacerbar esse tipo de problema é fazer mudanças de configuração nos veículos. “O SLS é um veículo bem impressionante, não queremos tornar cada um deles em uma obra de arte”, disse o chefe da Nasa, acrescentando que ter objetivos muito distantes em cada missão não é apropriado —referindo-se ao sobrevoo da Lua em uma missão e ao pouso na seguinte, nas missões Artemis 2 e 3.

Na avaliação de Isaacman, é necessário reconstruir capacidades importantes dentro da Nasa e não é ideal fazer um lançamento a cada três anos —a missão Artemis 1 foi lançada em novembro de 2022. As missões, segundo ele, deveriam ser anuais, pois lançamentos tão pouco frequentes seriam prejudiciais por perda de “memória muscular”.

O chefe da Nasa comparou a situação atual ao histórico de ida à Lua no século passado com as missões Apollo. Ele afirmou que a diferença de tempo entre as missões era de meses. Segundo ele, de toda forma, foram necessárias muitas missões de preparação, citando os programas Mercury e Gemini. “Não fomos direto à Apollo 11”, disse, referindo-se à primeira missão que levou humanos ao solo lunar. “Se você quer uma curiosidade histórica, olhe para o intervalo entre a amerissagem da Apollo 7 e o lançamento da Apollo 8: são apenas dois meses de diferença. Temos que voltar ao básico.”

Propulsor da missão Artemis 2 posicionado no Centro Espacial Kennedy, na Flórida (EUA) – Foto: Keegan Barber / Nasa

Em diversos momentos da entrevista coletiva, Isaacman afirmou que os membros da Nasa não esqueceram os livros de história.

Amit Kshatriya, administrador-associado da Nasa, também afirmou que colocar a etapa a mais antes de uma tentativa de pouso na Lua reduz riscos. “Isso reflete os ajustes que precisamos fazer para manter nosso cronograma confiável e nossas equipes focadas no que mais importa, que são missões seguras e realizáveis”, afirmou.

Enquanto falavam sobre os próximos passos da missão Artemis, os representantes da Nasa sempre apontavam que a intenção com o programa não é somente voltar a visitar a Lua, mas manter presença no satélite natural, com a construção de uma base lunar

Tanto a SpaceX, de Elon Musk, quanto a Blue Origin, de Jeff Bezos, estão desenvolvendo módulos para o programa Artemis, em uma disputa para ver qual empresa será a primeira a realizar o pouso na Lua para a Nasa.

A Boeing e a Northrop Grumman são responsáveis pela construção do SLS, que transporta a cápsula de astronautas Orion. Esta cápsula, fabricada pela Lockheed Martin, levará os astronautas até um dos módulos de pouso lunares no espaço antes da tentativa de pouso na Lua.

A missão atualizada da Artemis 3 envolverá a Orion, com astronautas a bordo, demonstrando a capacidade da cápsula de acoplar com um ou ambos os módulos de pouso em órbita baixa da Terra. O processo é uma etapa crucial no caminho da agência até a Lua.

Artemis 2

Os cronograma e objetivos da Artemis 2 permanecem os mesmos, apesar do pequeno atraso pelo qual já passa a missão no momento.

Segundo Lori Glaze, gerente do programa da Nasa de Lua a Marte, após os reparos necessários no foguete SLS, o lançamento pode ocorrer em abril deste ano.

A Artemis 2 marcará a primeira missão tripulada lançada com destino à Lua desde dezembro de 1972, quando ocorreu a Apollo 17, última visita de humanos à superfície lunar no século 20.

O foguete SLS no Centro Espacial Kennedy da Nasa, na Flórida (EUA), em dezembro de 2025 – Foto: Joel Kowsky / Nasa

A missão contornará a Lua e fará uma trajetória em forma de oito, retornando à Terra em seguida, num percurso de cerca de dez dias, entre ida e volta.

A tripulação é formada por Reid Wiseman, Victor Glover, Christina Koch e Jeremy Hansen.

Pela primeira vez, um homem negro (Glover), uma mulher (Koch) e um cidadão não americano (Hansen) farão a jornada além da órbita terrestre. Nas missões Apollo, todos os tripulantes eram americanos e brancos.

Kshatriya mencionou a tripulação da Artemis 2 e disse que as mudanças no desenho do programa como um todo também são para eles.

“Quando subirem naquele foguete, eles precisam saber que estão fazendo isso como parte de uma etapa, como parte de um plano que vai funcionar”, afirmou o administrador-associado da Nasa. “Eles disseram muitas vezes que estão fazendo essa missão para que seus colegas possam caminhar na Lua. Então, nossa atualização de hoje reforça esse compromisso com eles de que, quando pedirmos que assumam esse risco, quando assumirmos esse risco juntos, eles estarão fazendo isso por uma razão.”

Política

Isaacman, seguindo a linha crítica que adotou recentemente em relação a decisões internas da Nasa, afirmou que a agência já sabia que um lançamento a cada vários anos não era a forma ideal de se retornar à Lua.

“É isso que reconhecemos dentro da liderança da Nasa. A Nasa vem trabalhando nesses planos sabendo que essa não é a abordagem correta”, afirmou Isaacman. “Tem que haver uma maneira melhor, alinhada com a nossa história. Não pulamos direto para a Apollo 11. Chegamos lá passando por Mercury, Gemini e muitas missões Apollo, com uma cadência de lançamentos a cada três meses. Não deveríamos estar confortáveis com a cadência atual.”

O chefe da Nasa também foi questionado se os cortes orçamentários na área científica, inclusive na Nasa, durante o governo Donald Trump, poderiam ser relacionados à baixa cadência de lançamentos.

Isaacman negou que tenham ocorrido cortes na Nasa.

Astronauta Bruce McCandless 2º fez caminhda espacial em 1984; problema de saúde impediu procedimento na Estação Espacial Internacional – Foto: Nasa

Apesar de afirmar isso, as mudanças relacionadas à Nasa estão amplamente documentadas, como o corte de mais de 500 funcionários do Laboratório de Propulsão a Jato da agência norte-americana.

Em relação à corrida com China, cujo plano é colocar humanos no satélite até 2030, o chefe da agência disse ver de forma positiva a competição. “Acredito que seja uma ótima maneira de motivar nossa força de trabalho e parceiros a alcançar o quase impossível. A competição funcionou muito bem para nós na década de 1960.”

*Com informações de Folha de São Paulo