Presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva, durante cerimônia oficial de chegada. Jardins do Palácio de Pedralbes, Espanha - Foto: Ricardo Stuckert / PR

Ao se encontrar com empresários espanhóis e brasileiros em Barcelona na tarde desta sexta-feira (17/4), o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) reforçou o tom de comedimento que tem adotado nesta que deve ser sua última grande viagem internacional antes do início da campanha eleitoral.

Exemplo disso foi uma fala que fez ao final do encontro, com o objetivo de tranquilizar os empresários e incentivar negócios às vésperas da entrada em vigor do acordo Mercosul-União Europeia, em 1º de maio, que criará uma das maiores zonas de livre comércio do mundo.

“Eu digo todo dia: eu não quero briga com Xi Jinping, não quero briga com [Vladimir] Putin, não quero briga com [Donald] Trump, não quero briga com a menor ilha que exista no mundo. O que quero é paz, investimento, gerar melhoria nas condições de vida do povo brasileiro.”

Lula condenou a guerra no Irã, chamando-a de “desnecessária, inconsequente, sem justificativa”, sem mencionar, no entanto, os nomes do presidente americano e do primeiro-ministro de Israel, Benjamin Netanyahu, que deram início ao conflito com ataques coordenados contra o Irã.

“Não é possível que alguém resolva fazer guerra quando o mundo precisa de paz, investimento, tranquilidade, educação. Tudo o que não precisamos é de guerra.”

Ele também evitou se aprofundar no conflito desencadeado na Venezuela após a prisão de Nicolás Maduro pelos Estados Unidos em janeiro.

“Tenho muitas preocupações no Brasil para me preocupar com a Venezuela. O que eu quero é que a Venezuela fique bem e seja feliz, sem tutela de ninguém”, ele disse mais cedo, em entrevista coletiva.

Lula não reconheceu o resultado das eleições venezuelanas depois que Maduro se recusou a enviar às autoridades brasileiras documentos que comprovassem a autenticidade do pleito. Mas o petista afirmou agora que a vice-presidente venezuelana, Delcy Rodríguez, ocupa o cargo de forma legítima.

Foto: Ricardo Stuckert / PR

“A Venezuela é um destino dos venezuelanos. A presidente Delcy está no poder, legitimamente, porque, na medida em que o presidente caiu, ela era vice e assumiu. Se ela quer ou não convocar eleições, é problema dela, do povo dela, da Venezuela”, disse.

A declaração foi feita após uma pergunta dirigida ao primeiro-ministro espanhol, Pedro Sánchez. Ele foi questionado sobre a possibilidade de um encontro com María Corina Machado, líder da oposição venezuelana, que está em Madri.

A opositora afirma ter vencido as eleições no país no ano passado e acusa Maduro de fraude. Sánchez respondeu que chegou a oferecer uma reunião a Machado, mas ela teria recusado o convite.

Lula pousou em Barcelona no fim da noite de quinta-feira (16/4), por volta das 23h no horário local, às 18h em Brasília. A agenda de sexta-feira começou com uma reunião a portas fechadas com Sánchez, seguida de encontros com ministros de Estado espanhóis e brasileiros, no Palácio de Pedrálbes.

Foram assinados 15 acordos entre os dois países, com destaque para as áreas de minerais críticos, economia social e solidária, assuntos consulares, cooperação cultural, ciência e tecnologia, igualdade de gênero e igualdade racial, firmados na presença de jornalistas.

‘Ninguém tomará a riqueza mineral do Brasil’

Um dos principais acordos firmados diz respeito aos chamados minerais críticos — lítio, níquel, cobalto, nióbio, cobre, manganês e grafite.

Eles são essenciais para a produção de componentes tecnológicos, como baterias para veículos elétricos, e também para a indústria bélica, sobretudo a fabricação de aeronaves, drones e armamentos.

Os Estados Unidos têm alta dependência da China para a aquisição desses minerais, enquanto o Brasil dispõe de reservas ainda inexploradas.

Antes da Espanha, o único país com o qual o Brasil havia firmado um acordo sobre o tema era a Índia, durante visita do presidente Lula ao país, em fevereiro.

Presidente da China Xi Jinping fala durante evento com empresários – Foto: Adek Berry / AFP

Mas ambos os documentos não dizem respeito à extração de minérios, e sim à cooperação na área. Isso porque, afirmou Lula, a ideia é que seja criada uma cadeia produtiva para evitar a exportação de matéria-prima bruta.

“O Brasil já deixou passar o ciclo do ouro, em que levaram tudo, enriqueceu vários países, e o Brasil ficou pobre. A América Latina já deixou passar o ciclo do ouro, o ciclo da prata, da pérola e da madeira”, disse o presidente.

“Não podemos agora permitir que a riqueza que a natureza nos deu não permita que a gente fique rico. Estamos dispostos a fazer acordo com todos os países que quiserem fazer acordo com o Brasil. Mas ninguém, ninguém a não ser o Brasil, será dono da nossa riqueza mineral.”

Lula evita menções a Trump

A passagem pela Espanha, na avaliação de especialistas ouvidos pela BBC News Brasil, é vista como um campo minado caso Lula suba o tom contra Trump.

Para Guilherme Casarões, professor de Relações Internacionais da Universidade Internacional da Flórida, Lula deve “tomar cuidado para não apertar os botões errados” e evitar se empolgar nas críticas ao republicano.

Uma declaração em uma ocasião como esta, diante de jornalistas do mundo inteiro, pode ter repercussão mais ampla — e mais rápida, em diferentes idiomas — do que falas feitas no dia a dia no Brasil.

Em outras palavras, afirma o professor, Lula tem de equilibrar eventuais críticas a Trump — para dialogar com sua base e aliados de esquerda — sem elevar o tom a ponto de afastar outra parcela do eleitorado, que considera essencial manter uma boa relação com os Estados Unidos e com o próprio presidente americano.

Esse cálculo ocorre em um cenário eleitoral sensível. O senador Flávio Bolsonaro (PL), que se consolida como o principal adversário de Lula, aparece numericamente à frente em pesquisas de intenção de voto para um eventual segundo turno.

Na pesquisa mais recente da Quaest, divulgada na quarta-feira (15/4), Lula tem 40% das intenções de voto, contra 42% de Flávio.

O presidente da Rússica, Vladimir Putin, e o ditador da Venezuela, Nicolás Maduro, durante o último encontro entre ambos em Moscou, em maio passado – Foto: Alexander Zemlianitchenko / Sputnik / Reuters

O ex-deputado Eduardo Bolsonaro (PL), irmão de Flávio, deixou o Brasil para viver nos Estados Unidos e se aproximar de figuras-chave do governo Trump.

Esse movimento reforça, entre eleitores que rejeitam Lula, a percepção do filho de Jair Bolsonaro (PL) como uma ponte mais confiável na relação entre Brasil e Estados Unidos, segundo analistas.

No sábado (18/4), Lula participa de um evento promovido por Sánchez que reúne lideranças progressistas diante do avanço da direita radical. Trata-se do Global Progressive Mobilisation (Mobilização Progressista Global, em tradução livre), uma iniciativa que discute temas como ameaças à democracia, desinformação e violência de gênero.

No domingo (19/4), o presidente segue para Hannover, na Alemanha, onde participa de uma feira de negócios e tecnologia.

A viagem será encerrada na terça-feira (21/4), com uma visita a Lisboa, capital de Portugal.

*Com informações de Terra