O Ibovespa encerrou outubro com queda de 9,88%, aos 167.921,80 pontos, no pior desempenho mensal desde junho de 2022. O dólar comercial subiu 5,22% no período, fechando cotado a R$ 5,444. O mês foi marcado por uma mudança brusca nas expectativas dos investidores: o otimismo com a possibilidade de vitória de Flávio Bolsonaro (PL) deu lugar à redução das apostas nos ativos brasileiros após a reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT).
A última semana concentrou a maior parte da deterioração dos mercados. O Ibovespa caiu 18,12%, na maior perda semanal desde março de 2020, no início da pandemia de covid-19. O dólar disparou 9,04%, sua maior valorização semanal desde outubro de 2008, durante a crise financeira internacional.
Da euforia à queda
O resultado mensal contrastou com o forte avanço registrado após o primeiro turno. Em 5 de outubro, o Ibovespa saltou 7,7%, impulsionado pela vantagem de Flávio na votação e pela expectativa de uma política econômica voltada ao controle dos gastos públicos. O dólar chegou a ser negociado abaixo de R$ 5 ao longo do mês.
A aproximação entre os candidatos nas pesquisas reduziu o fôlego dessa aposta durante a campanha. Os investidores acompanharam as sondagens eleitorais e cobraram propostas para as contas públicas, enquanto ajustavam suas posições antes do segundo turno.
A vitória de Lula provocou uma reversão abrupta no primeiro pregão após a eleição, em 26 de outubro. A queda do Ibovespa levou ao acionamento do circuit breaker, mecanismo que interrompe temporariamente as negociações quando o índice registra perdas acentuadas. A pressão continuou nos dias seguintes, e a Bolsa terminou o mês abaixo do patamar anterior ao primeiro turno.
Segundo Rebecca Nossig, estrategista de ações da Nomad, parte expressiva do mercado estava posicionada para uma vitória de Flávio, o que exigiu uma reorganização rápida das carteiras após o resultado.
Com a consolidação desse novo cenário, as atenções se voltaram para as incertezas sobre o futuro da política fiscal e a trajetória das contas públicas, gerando forte cautela quanto à composição da nova equipe econômica. Rebecca Nossig, estrategista de ações da Nomad.
Contas públicas e juros preocupam
A indefinição sobre a condução da economia prolongou a pressão sobre os ativos brasileiros. Na última semana do mês, os investidores aguardaram os nomes da equipe econômica e medidas concretas para conter os gastos públicos. A ausência dessas sinalizações manteve elevada a procura por proteção e o retorno exigido para investir no país.
Relatórios publicados após a eleição já apontavam o risco de interrupção dos cortes de juros. Em análise, José Faria Júnior, da Wagner Investimentos, avaliou que a valorização do dólar poderia alterar as perspectivas para a política monetária.
“Os juros futuros irão reverter todo o movimento de queda do pós-eleição. As probabilidades de corte de juros pelo Copom deverão ser eliminadas devido à alta do dólar”, escreveu o analista.
O câmbio mais alto acrescentou uma preocupação com a inflação às dúvidas fiscais. A desvalorização do real pode encarecer produtos e insumos cotados em dólar, pressionando os preços no Brasil e reduzindo o espaço para novos cortes da Selic.
Em relatório divulgado no último dia útil do mês, o Itaú passou a projetar a manutenção da taxa básica em 13,75% ao ano na reunião de novembro. O banco citou as pressões inflacionárias domésticas, o petróleo elevado e as condições financeiras internacionais mais apertadas. A instituição também passou a esperar uma decisão unânime pela interrupção do ciclo de redução dos juros.
O cenário externo trouxe obstáculos adicionais durante outubro. O petróleo permaneceu em patamar elevado em meio às tensões entre Estados Unidos e Irã, enquanto os juros americanos e as dúvidas sobre os retornos dos investimentos em inteligência artificial alimentaram a cautela nos mercados globais. Na última reunião do mês, o Federal Reserve, banco central americano, manteve os juros entre 3,75% e 4% ao ano.
O que esperar de novembro
A definição da equipe econômica e a apresentação de propostas para as contas públicas ficaram como os principais pontos de atenção para novembro. Para a Monte Bravo, a estabilização das expectativas dependerá de anúncios acompanhados de medidas concretas.
“A definição do ministro da Fazenda e a apresentação de medidas fiscais concretas serão determinantes para estabilizar as expectativas domésticas”, afirmou a instituição em relatório de hoje.
Rebecca Nossig também avalia que as decisões sobre a política econômica continuarão influenciando os preços dos ativos nas próximas semanas. Segundo ela, os investidores devem aguardar informações sobre a gestão fiscal e os nomes que comandarão a economia antes de ampliar suas posições.
“Os agentes financeiros aguardarão anúncios concretos sobre a gestão fiscal e os nomes que estarão à frente da economia para dissipar parte das incertezas e tentar estabilizar a precificação dos ativos”, afirmou.
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