Reproduzir gestos e sinais com as mãos pode parecer inofensivo, mas, quando associados a facções criminosas , esses símbolos podem se transformar em uma sentença de morte.
O risco é mais evidente em áreas marcadas pelo domínio e pela disputa territorial entre grupos criminosos, onde determinados gestos podem ser interpretados como uma “afronta direta”. Ainda assim, o perigo não se restringe a esses locais. Em diferentes regiões do país, a simples reprodução de um sinal pode levar alguém a ser identificado como “inimigo”, mesmo sem qualquer envolvimento com o crime.
Se antes esse tipo de risco estava concentrado em territórios específicos, hoje o cenário é mais amplo. A circulação de pessoas entre estados, a presença de organizações criminosas em diversas regiões e o uso intenso das redes sociais ampliaram o alcance dessas interpretações. Imagens publicadas online podem ser analisadas à distância, enquanto abordagens durante deslocamentos ou em contextos de conflito local também têm resultado em episódios de violência motivados pela leitura de gestos e sinais em fotos e postagens, em diferentes pontos do país.
Quais são os símbolos?
Para entender por que esses gestos são tratados como ameaça, é preciso saber quais símbolos estão em jogo. Os mais conhecidos estão associados às duas maiores facções com atuação nacional: o Comando Vermelho (CV) e o Primeiro Comando da Capital (PCC), presentes em ao menos 25 estados brasileiros.
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Tudo 3: representado por três dedos levantados, o gesto é associado ao PCC e faz referência ao número de letras da sigla. Em alguns contextos, também pode ser relacionado a facções aliadas.
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Tudo 2: representado por dois dedos levantados, o sinal é associado ao CV e corresponde ao número de letras da sigla da organização.
Segundo a desembargadora Ivana David, do Tribunal de Justiça de São Paulo, os significados desses símbolos não são fixos e podem variar conforme o estado. Em regiões como a Bahia, por exemplo, o gesto de três dedos também pode ser interpretado como uma saudação à facção Bonde do Maluco
Quando esses símbolos aparecem pichados em muros e espaços públicos, o objetivo é marcar território e demonstrar controle da área. A desembargadora destaca que as 88 organizações criminosas já identificadas pela Secretaria Nacional de Políticas Penais (Senappen) possuem simbologias próprias.
“São 88 e cada qual ostenta características territoriais específicas nos respectivos estados da federação”, ressalta.
Para o advogado especialista em direito criminal Fernando Viggiano, a rigidez no uso desses gestos varia conforme o nível de organização do grupo.
“Grupos mais estruturados tendem a consolidar códigos, rituais, ‘marcas’ e sinais mais estáveis, porque isso reforça identidade, disciplina e controle. Já agrupamentos menos organizados podem operar com simbologias mais fluidas, oportunistas e locais. Ainda assim, a lógica do símbolo é comum: criar identidade, impor fronteiras e produzir temor com baixo custo operacional”, explica.
Origem das siglas
Os gestos associados a facções criminosas surgiram, em grande parte, como uma forma funcional de comunicação em ambientes marcados por vigilância constante e risco, como o sistema prisional e áreas sob controle territorial. A lógica é simples: transmitir mensagens de forma rápida, discreta e facilmente reconhecível por quem faz parte do grupo, sem a necessidade de palavras.
Com o tempo, esses sinais passaram a cumprir múltiplas funções. Servem para identificar aliados, indicar rivalidade, impor disciplina interna e exercer controle simbólico sobre determinados espaços. Ao projetar poder e autoridade, os gestos ajudam a reforçar hierarquias e a delimitar fronteiras, funcionando como instrumentos de intimidação mesmo quando usados à distância.
Esses símbolos também operam como demonstrações públicas de lealdade e alinhamento. Podem assumir formas numéricas ou gráficas e funcionam como uma espécie de “saudação” entre faccionados, ao mesmo tempo em que estabelecem uma linha clara entre aliados e rivais.
Esse código deixa de ser restrito aos integrantes das facções quando passa a circular fora desses ambientes, aparecendo em fotos, vídeos, músicas e no cotidiano de comunidades onde o crime organizado já influencia comportamentos e rotinas.
Entre jovens, no entanto, o uso desses gestos nem sempre está ligado ao crime. Há uma forte busca por pertencimento e reprodução por influência do ambiente ou das redes sociais. Muitas vezes, a repetição ocorre sem plena consciência do significado ou das consequências, o que amplia a vulnerabilidade e o risco de interpretações violentas.
Relembre alguns casos
1. Weliton Gomes Sousa Feitosa

Weliton Gomes Sousa Feitosa, de 23 anos, foi morto a tiros em agosto de 2025 no bairro Jardim Carolina, em Sorriso, a cerca de 396 quilômetros de Cuiabá. A vítima foi atingida por um disparo na cabeça, e a morte foi constatada ainda no local por uma equipe do Corpo de Bombeiros.
Weliton morava em Matupá e estava em Sorriso desde a noite anterior, onde passava o fim de semana a passeio. Segundo a Polícia Militar, horas antes do crime ele havia ido a um bar com uma amiga, onde jogou sinuca e consumiu bebidas alcoólicas.
Durante a permanência no local, Weliton tirou uma foto fazendo um gesto com a mão interpretado como apologia a uma facção criminosa. A investigação aponta que um homem que estava no bar, e que não conhecia a vítima, o repreendeu e exigiu que a imagem fosse apagada, o que foi feito antes de Weliton deixar o local.
Já no período da noite, enquanto estava acompanhado de outros amigos, Weliton foi surpreendido por quatro homens que chegaram em duas motocicletas e efetuaram os disparos.
2. Marcos Vinícius Alves Gonçalves

Marcos Vinícius Alves Gonçalves, de 20 anos, teria sido assassinado a tiros em janeiro de 2025, em Feira de Santana, na Bahia, depois de alguns homens terem se aproximado do jovem e acessarem o conteúdo do celular dele. Em seguida, teriam atirado contra Marcos, que morreu no local.
Segundo a investigação, uma das linhas apuradas é a de que o homicídio tenha sido motivado por uma imagem publicada nas redes sociais, na qual o jovem aparece fazendo um gesto com a mão, interpretado como sinal associado a uma facção criminosa. O caso segue em investigação.
3. Everton Santos da Silva
Everson Santos da Silva, de 36 anos, natural de Alagoas, foi assassinado em janeiro de 2025 após ter um gesto interpretado como sinal de facção criminosa, segundo a Polícia Civil de Mato Grosso, onde viajava a trabalho.
O corpo foi encontrado em uma área de mata no município de Sorriso, a cerca de 420 quilômetros de Cuiabá. A vítima estava com as mãos amarradas, ao lado de uma árvore, e apresentava perfurações causadas por disparos de arma de fogo.
De acordo com a investigação, Everson havia estado em um bar frequentado e controlado por integrantes do crime organizado, onde tirou uma foto fazendo um gesto com a mão associado ao número três. A polícia aponta que ele não tinha ligação com facções criminosas e que o gesto foi interpretado pelos suspeitos como uma provocação a um grupo rival, o que teria motivado o homicídio.
4. Kaik Rener Marques Pereira
Kaik Rener Marques Pereira foi morto em dezembro de 2024, mas o corpo só foi localizado em fevereiro de 2025, durante diligências policiais em uma área de mata na Reserva Florestal Adolpho Ducke, na zona norte de Manaus.
De acordo com a investigação da Delegacia Especializada em Homicídios e Sequestros (DEHS), Kaik havia sido abordado enquanto realizava um serviço com o tio em uma residência na comunidade Valparaíso, no bairro Jorge Teixeira, zona leste da capital amazonense. O desaparecimento do jovem levou a polícia a iniciar buscas ainda naquele período.
A apuração aponta que, ao deixar o local para retornar para casa, Kaik foi interceptado por homens que passaram a questioná-lo e a verificar o conteúdo de seu celular. Entre os arquivos, encontraram uma foto publicada em rede social que foi interpretada pelos suspeitos como indício de ligação com uma facção criminosa rival.
A partir dessa interpretação, os envolvidos decidiram executar a vítima. Kaik foi levado a pé até uma área de mata, onde foi torturado e morto a golpes de faca. Em seguida, o corpo foi descartado na reserva florestal, onde acabou sendo encontrado meses depois.
5. Daniel Natividade e Gustavo Natividade

Os irmãos Daniel Natividade, de 24 anos, e Gustavo Natividade, de 15, foram mortos a tiros no dia 24 de outubro de 2024, enquanto participavam de uma excursão no Emissário de Arembepe, em Camaçari, na Região Metropolitana de Salvador. Músicos do bloco afro Malê Debalê, eles não tinham qualquer envolvimento com atividades criminosas.
Segundo as investigações, o crime ocorreu horas depois de os dois aparecerem em uma foto registrada durante o passeio. Na imagem, Daniel, Gustavo e outras duas pessoas faziam o chamado “sinal do 3”, gesto que foi interpretado pelos autores dos disparos como uma saudação a um grupo criminoso rival que atua na região.
Os irmãos, que moravam em Salvador, estavam em Arembepe como turistas e, de acordo com a polícia, desconheciam a dinâmica local e a disputa entre facções pelo controle do tráfico de drogas.
6. Rayane Alves Porto Rithiely Alves Porto














