Foto: Filipe Jazz

O Censo Escolar do Ministério da Educação aponta a redução de 1 milhão de matrículas de 2024 a 2025 na educação básica, o que representa a maior queda de matrículas em quase duas décadas. A variação negativa mais intensa ocorreu no ensino médio e também houve redução de alunos na educação infantil, o que não ocorria desde a pandemia.

A edição de 2025 do Censo Escolar foi divulgada nesta quinta-feira (26) pelo MEC (Ministério da Educação). Os dados, que trazem o panorama da educação brasileira, são de responsabilidade do Inep (Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais), ligado ao ministério.

O Censo Escolar registrou 46.018.380 matrículas na educação básica em 2025, em 178 mil escolas públicas e privadas de todo o país. O total de alunos representa redução de 2,3% ante o apurado no ano anterior, quando eram 47.088.922 matrículas. Em 2024, a redução tinha sido de 0,45%, na comparação com 2023.

A justificativa do MEC para as reduções envolve mudanças do perfil demográfico, com redução no número de crianças e jovens, e a melhoria da eficiência do sistema, com melhores aprovações de alunos por parte dos sistemas escolares. Especialistas questionam.

Uma variação negativa tão grande só havia sido anotada em 2007, quando houve mudanças na metodologia do levantamento, que passou a computar dados a partir do CPF dos alunos. Naquele ano, a queda foi de 5,21%.

A redução de matrículas no ensino médio foi o que mais surpreendeu, com uma queda de 5,4%. Ao levar em conta só o ensino público, a redução foi de 6,3%. As redes estaduais, que concentram 8 em cada 10 alunos do ensino médio no país, perderam 428 mil alunos de 2024 a 2025. A rede privada, entretanto, teve alta de 0,6% nas matrículas.

O indicador agregado para a etapa registrou 7.370.879 matrículas em 2025. Eram 7.790.396 no ano anterior.

O dado, porém, é contestado pela Secretaria de Educação de São Paulo, que nega que tenha registrado queda de alunos no período. A pasta da gestão Tarcísio de Freitas (Republicanos) atribui a redução a uma mudança na contabilização das matrículas.

Foto: Antônio Pereira / Semcom

“Até 2024, os dados contabilizavam múltiplas matrículas para um mesmo aluno se ele estivesse vinculado a mais de uma modalidade ou itinerário. A partir de 2025, houve adequação na gestão dos dados para que fosse contabilizada, com precisão, uma matrícula por aluno. Portanto, não é correto relacionar a variação registrada pelo Censo a evasão ou abandono escolar.”

O presidente do Inep, Manuel Palacios, afirma que o órgão não encontrou inconsistências nos dados por ora, mas solicitou uma análise para verificar a contestação.

Mais cedo, durante entrevista coletiva realizada em Manaus (AM), o ministro da Educação, Camilo Santana, afirmou que a queda nas matrículas não é problema. “É na verdade um bom sinal de que nossos sistema educacional está mais eficiente. Porque o atendimento educacional à população educacional aumentou.”

A queda de matrículas também está relacionada à diminuição da repetência, segundo a pasta. “Os alunos estão repetindo menos e, com isso, a gente deixa de ter um inchaço no sistema educacional com alunos fora da série em que deveriam estar.”

Ao apresentar os dados, o ministro fez uma série de elogios a políticas da atual gestão e chegou a criticar reportagens que mostravam a queda no número de matrículas.

O MEC distribuiu com antecedência planilhas com as matrículas, mas sem dados contextuais, como taxas de fluxo ou percentuais de atendimento por idade. Algumas dessas informações foram apresentadas durante a coletiva.

O pesquisador do Inep Fabio Bravin disse durante a entrevista que alterações demográficas também contribuíram para a movimentação.

A pasta apresentou durante a coletiva dados que indicam redução no número de jovens entre 15 e 19 anos de 2021 a 2024 (uma queda média de apenas 1,6% por ano). Já a taxa de distorção idade-série na etapa passou de 17,8% em 2024 para 16% no ano passado –esse índice representa alunos atrasados na escola.

Para Ernesto Faria, do Iede (Interdisciplinaridade e Evidências no Debate Educacional), a explicação do MEC para a queda de matrículas (mudança demográfica e melhoria na aprovação escolar) não parece suficiente quando outros dados são analisados.

Foto: Filipe Jazz

“Ocorreu queda tanto nas matrículas para faixa etária de 15 a 17 anos [que ainda devem estar na escola] como dentro de uma mesma geração de alunos”, diz. “Há uma queda importante na quantidade de matrículas quando se compara o número para o 2º ano do ensino médio em 2024 com o número para o 3º ano do ensino médio em 2025. Isso indica que há uma soma de abandono e evasão escolar importante.”

Houve ainda uma alteração, na edição de 2025, no formato de cadastro das matrículas do ensino médio técnico profissional, com a inclusão de uma nomenclatura que não constava nas edições anteriores.

A queda de alunos na educação básica tem sido contínua nos últimos anos em razão de uma transição demográfica (com o nascimento de menos crianças), sendo observada sobretudo no ensino fundamental. Em 2025, as matrículas entre o 1º e o 9º anos tiveram leve redução (-0,75%), passando de 26 milhões para 25,8 milhões de alunos —um ritmo de queda similar a anos anteriores.

Os dados sobre educação de tempo integral tiveram avanços no país. O percentual de estudantes com 7 horas ou mais de aulas diárias foi de 17,6% nos anos iniciais do ensino fundamental, de 20% nos anos finais, considerando escolas públicas e privadas. No ensino médio, o índice foi de 26,8% na rede pública.

“Mas é importante destacar: ampliar o tempo de permanência na escola é uma condição necessária, não suficiente. Educação Integral de qualidade exige intencionalidade pedagógica”, diz Patricia Mota Guedes, superintendente do Itaú Social.

Na educação infantil, que compreende creche e pré-escola, houve uma primeira queda de matrículas desde 2021, ano impactado pela pandemia. O total de alunos, de escolas públicas e privadas, foi de 9,5 milhões em 2024 para 9,3 milhões no ano passado.

Houve aumento de matrículas de creche na rede pública, que passou de 2,80 milhões em 2025 para 2,83 milhões em 2025, e queda na rede privada: de 1,38 milhão para 1,35 milhão.

Já na pré-escola houve queda de modo generalizado. Na rede pública, houve redução de 3,2%. O número de alunos nessas escolas passou de 4,13 milhões em 2024 para 3,99 milhões no ano passado.

A EJA (Educação de Jovens e Adultos) registrou nova redução no número de alunos, dessa vez de 5,8%. Eram 2,5 milhões em 2025, contra 2,4 milhões no ano anterior.

Foto: Dhyeizo Lemos / Semcom-Prefeito

O país registra 2,40 milhões de professores na educação básica em 2025. Um aumento com relação a 2024, quando havia 2,36 milhões de docentes.

O número de alunos de educação especial também cresceu. Passou de 2 milhões para 2,4 milhões, uma alta de 18,4% entre 2024 e 2025.

Já a educação indígena teve um leve retrocesso em termos de matrículas. Eram 294 mil estudantes nessa modalidade em 2024, o que passou para 288 mil no ano passado.

As matrículas de educação profissional no ensino médio tiveram um salto de 24% em 2025, sobretudo por causa da oferta de itinerários formativos dessa modalidade dentro da carga horária dos alunos.

A reforma do ensino médio, cujas regras foram criadas em 2017 e foram alteradas em 2024, prevê a oferta de cinco itinerários formativos: linguagens, ciências humanas, ciências da natureza, matemática e ensino técnico profissionalizante. A previsão é que os alunos escolham qual área seguir.

O Censo registra 3,19 milhões de alunos de educação profissional –eram 2,6 milhões em 2024. Do total do ano passado, 2,19 milhões estão em escolas públicas.

*Com informações de Folha de São Paulo