Países da União Europeia aprovaram sexta-feira, em Bruxelas, o acordo de livre comércio com o Mercosul, o maior do mundo, criando um mercado de 722 milhões de consumidores. Espera-se que o tratado seja assinado na próxima semana no Paraguai. Para o Brasil, o acordo é visto como chance de conciliar expansão do agronegócio com o compromisso de zerar o desmatamento ambiental. Esse compromisso foi reiterado pelo governo brasileiro durante a COP30, realizada em Belém, no fim do ano passado.
Para o climatologista Carlos Nobre, colunista de Ecoa e uma das maiores referências mundiais em estudos sobre clima e Amazônia, o acordo pode acelerar esse processo. Segundo ele, o país já dispõe de ferramentas capazes de rastrear a origem dos produtos e assegurar que exportações não estejam associadas a áreas desmatadas.
“Essa rastreabilidade pode demonstrar realmente que não houve nenhum desmatamento. Isso é o mais importante”, afirma Nobre.
Efeitos antes da assinatura
Mesmo antes de ser formalizado, o acordo já produz efeitos concretos no Brasil, especialmente no avanço de mecanismos de rastreabilidade ambiental. É o que avalia o professor Raoni Rajão, coordenador do Centro Tecnológico de Modelagem Ambiental da UFMG (Universidade Federal de Minas Gerais).
“Já houve um efeito positivo que gerou ação de sete estados para avançar na adoção do Selo Verde, uma solução governamental de rastreabilidade, inclusive desenvolvida pela UFMG. Esse sistema pode ser usado por vários mercados, não apenas pela União Europeia”, diz Rajão.
Otimismo após duas décadas
Na última segunda-feira, o vice-presidente Geraldo Alckmin afirmou estar otimista com o desfecho das negociações. Segundo Alckmin, em um contexto de guerras, conflitos, instabilidade geopolítica (como a intervenção dos EUA na Venezuela) e o avanço do protecionismo, o acordo tende a se tornar o maior tratado comercial do mundo, reunindo um mercado de mais de 700 milhões de consumidores.
Para reduzir resistências, a Comissão Europeia convocou reuniões com ministros da Agricultura e colocou na mesa salvaguardas comerciais, controles mais rígidos sobre resíduos de pesticidas e a promessa de reforço do financiamento agrícola no próximo orçamento plurianual do bloco. O principal temor, sobretudo na França e na Itália, é o impacto de commodities sul-americanas mais baratas, como carne bovina, açúcar e soja, sobre produtores locais.
Ambientalismo e protecionismo
Esse contexto ajuda a explicar o papel ambíguo do discurso ambiental no debate europeu. De um lado, há preocupações legítimas com sustentabilidade e desmatamento. De outro, o argumento ambiental é usado como instrumento de proteção comercial.














