Um morador afetado, contratado pela Petroecuador, trabalha na extração de petróleo do rio Caple, após um vazamento causado por um oleoduto danificado, em Esmeraldas, no Equador - Foto: Cesar Munoz / Reuters

Quando o assunto são investimentos sustentáveis, o mundo está no vermelho. Um novo relatório aponta que a cada US$ 1 investido na proteção da natureza ao redor do globo, outros US$ 30 são gastos na sua devastação.

O dado considera as finanças públicas e privadas globais e é o principal achado de uma análise dos índices de 2023 feita pelo Pnuma (Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente).

O levantamento concluiu que US$ 7,3 trilhões em fluxos de financiamento foram prejudiciais à natureza —sendo US$ 4,9 trilhões provenientes de fontes privadas e US$ 2,4 trilhões em subsídios públicos ambientalmente nocivos.

Apenas US$ 220 bilhões (o equivalente a 3% do total investido em setores destrutivos) foram destinados ao financiamento de soluções baseadas na natureza (SbN), como são chamadas ações para proteger, restaurar e usar de forma sustentável os ecossistemas. Deste total, 90% (US$ 197 bilhões) são provenientes de fontes públicas.

“Quando seguimos o dinheiro, vemos o tamanho do desafio que temos pela frente. Podemos investir na destruição da natureza ou impulsionar sua recuperação —não há meio-termo”, afirma a diretora executiva do Pnuma, Inger Andersen, em comunicado.

“Enquanto o financiamento para soluções baseadas na natureza avança lentamente, investimentos e subsídios prejudiciais disparam. Este relatório oferece aos líderes um roteiro claro para reverter essa tendência e trabalhar com a natureza, não contra ela.”

Grande virada da natureza

Segundo o Pnuma, os investimentos em iniciativas focadas no meio ambiente deveriam crescer 2,5 vezes, chegando a US$ 571 bilhões por ano até 2030, para que sejam cumpridas as metas do mais recente tratado da ONU para biodiversidade. Pode parecer muito, mas o valor representa apenas 0,5% do PIB global em 2024.

Até a metade do século, a projeção do órgão é que esse valor precise atingir US$ 771 bilhões anuais.

Grupo Especializado de Fiscalização (GEF) do Ibama combate desmatamento e garimpo de cassiterita na Terra Indígena Tenharim do Igarapé Preto, Amazonas – Foto: Vinícius Mendonça / Ibama

Para isso, a agência da ONU defende uma “grande virada da natureza”: não apenas proteger e restaurar o meio ambiente, mas fazer isso redirecionando os trilhões de dólares que financiam a degradação da natureza para iniciativas verdes.

Isso se daria, segundo o Pnuma, incorporando soluções baseadas na natureza em todos os setores-chave da economia e da sociedade.

“[Essa virada] requer uma mudança de perspectiva para enxergar a natureza como um ativo que pode melhorar o bem-estar humano em áreas urbanas, industriais e rurais, identificando oportunidades econômicas para aplicar soluções baseadas na natureza, bem como criando incentivos econômicos para a transição de fluxos de capital negativos para a natureza”, diz o relatório.

Ainda que a escala desse tipo de mudança seja desafiadora, o relatório traz exemplos de países que estão tomando medidas concretas para implementá-la.

Na Costa Rica, o reflorestamento de terras degradadas a nível nacional foi viabilizado a partir de incentivos financeiros que vinham de uma taxa sobre combustíveis fósseis.

Na Dinamarca, a transição dos combustíveis fósseis foi acelerada direcionando a verba arrecadada com impostos sobre energia a pesquisas científicas para avançar em energia eólica. Também foram utilizados mecanismos como taxação por emissões de carbono e contratos mais longos e estáveis para produtores de energias renováveis (conhecidos como “feed-in tariffs”).

“Esse tipo de mudança requer [um misto de] visão de futuro com fortes sinais políticos, fundamentados em planos de transição práticos e baseados em evidências científicas”, ressaltam os autores da análise.

Cenário atual

Atualmente, os setores poluentes que mais contam com investimentos privados, na forma de títulos, empréstimos e ações, são serviços públicos, como saneamento e eletricidade (US$ 1,58 trilhões), e indústria (US$ 1,38 trilhões). Em seguida vêm energia (US$ 790 bilhões), matérias-primas (US$ 740 bilhões) e bens de consumo (US$ 430 bilhões).

Na esfera pública, quase metade dos subsídios prejudiciais ao meio ambiente vai para os combustíveis fósseis (US$ US$ 1,13 trilhões). O valor representou uma queda de 36% em relação ao recorde de US$ 1,78 trilhões atingido em 2022, como consequência da crise energética devido à invasão da Ucrânia pela Rússia.

Foto: Marcelo Camargo / Agência Brasil

O restante dos incentivos fiscais de 2023 é dividido entre agricultura (US$ 410 bilhões), água para fins comerciais (US$ 400 bilhões), transporte (US$ 180 bilhões), construção (US$ 150 bilhões), pesca (US$ 60 bilhões) e mineração para fins não energéticos (US$ 40 bilhões) e plástico (US$ 30 bilhões).

Já no tímido campo das finanças verdes, a maior parte dos fundos são estatais. Cerca de 75% do total investido está concentrado nas áreas de biodiversidade (US$ 82 bilhões) e agricultura, silvicultura e pesca sustentáveis (US$ 66 bilhões). Combate à poluição (US$ 15 bilhões), gestão de efluentes (US$ 15 bilhões), política ambiental (US$ 11,6 bilhões) e financiamento internacional (US$ 6,8 bilhões) completam o leque de investimentos.

Entre os US$ 23,4 bilhões que vêm do setor privado para soluções baseadas na natureza, US$ 7 bilhões são destinados a créditos de biodiversidade e US$ 4 bilhões vão para pagamento por serviços ambientais, ambas iniciativas que visam a conservação de ecossistemas como um todo.

O restante dos recursos vai para títulos e fundos verdes (US$ 5 bilhões), cadeias produtivas de commodities certificadas (US$ 4,6 bilhões), créditos de carbono (US$ 1,3 bilhões), financiamento internacional para nações em desenvolvimento (US$ 900 milhões) e filantropia (US$ 300 milhões).

*Com informações de Folha de São Paulo