A conexão entre tecnologia, saberes tradicionais e autonomia dos povos da floresta esteve no centro do 3º Encontro da Rede Conexão Povos da Floresta, na Escola Família Agroextrativista do Carvão, em Mazagão, no Amapá. O encontro reuniu 176 participantes, 60 organizações e representantes de 55 comunidades e territórios, consolidando um espaço de escuta, troca de experiências e construção coletiva.
Realizado em um território marcado pela tradição agroextrativista e pela formação de jovens por meio da pedagogia da alternância, o encontro deu continuidade a uma trajetória iniciada em 2024, em Alter do Chão (PA), e fortalecida em 2025, em Manaus (AM). Em sua terceira edição, a Rede avançou da discussão sobre conectividade significativa para a apresentação de resultados concretos e para a definição de compromissos voltados à transformação dos territórios.
“O terceiro encontro mostra a expansão da rede, de forma orgânica e consciente e segura”, afirmou Juliana Dib Rezende, secretária executiva da Rede Conexão Povos da Floresta. Para ela, o encontro também evidenciou a força da participação comunitária e dos processos formativos desenvolvidos pela iniciativa. “É um espaço aberto para que os conhecimentos dos territórios da floresta e os saberes ancestrais sejam compartilhados e eternizados”, destacou.
Conectividade com propósito e protagonismo comunitário
Ao longo dos três dias, as discussões abordaram temas como energia, educação, conectividade significativa, proteção territorial, saúde, cultura, empreendedorismo e participação de mulheres e juventudes. A proposta foi discutir a internet não apenas como infraestrutura, mas como ferramenta para ampliar direitos, fortalecer organizações locais e apoiar soluções construídas nos próprios territórios.
Para Vagner Diniz, gerente do Centro de Estudos sobre Tecnologias Web (Ceweb.Br) do NIC.br, a experiência da Rede demonstra a importância de garantir que as comunidades tenham condições de decidir como utilizar a conectividade. “É como a gente estar numa canoa. Se você solta essa canoa à deriva, ela vai para qualquer lugar e você não sabe exatamente o destino. Se você tem um remo, você pode ir com essa canoa para onde você quiser. Para nós, a Rede Conexão Povos da Floresta é como essa canoa com um remo: você vai saber o destino, para onde você vai, como é que você vai usar a internet, de tal forma que você vai para o destino que você quiser”, afirmou.
A analogia também expressa uma das premissas centrais da Rede: a conectividade deve estar acompanhada de formação, apropriação e autonomia para que as comunidades possam definir seus próprios caminhos. “Quem sabe usar a internet para se beneficiar, para evidenciar a comunidade e os territórios, pode ir para qualquer lugar, pode fazer o que for necessário”, completou Vagner.
A escolha da Escola Família Agroextrativista do Carvão como sede do encontro reforçou essa perspectiva. Segundo Dalva Miranda, presidente da Associação Nossa Amazônia, mantenedora da escola, o espaço reúne cerca de 200 alunos de diferentes biomas, dois estados, seis municípios e 157 comunidades, constituindo, por si só, um importante espaço de conexão.
“Trazer o evento desse porte para cá, eu posso te dizer que é uma aula magna para os nossos alunos, que estão assistindo e percebendo que projetos como o nosso, sociedade organizada, funcionam muito bem se forem muito bem conectados e fizerem as conexões necessárias”, afirmou Dalva. Para ela, discutir a chegada da internet às comunidades é fundamental porque a conectividade pode estar voltada “para a formação, para a saúde, para a cultura e para a produção, para melhorar e divulgar a nossa produção”.

A presença da Rede na escola também aproximou os estudantes de uma experiência concreta de articulação entre organizações, comunidades e parceiros. “Muitos alunos aqui já têm nas suas casas o kit de conectividade da Rede Conexão Povos da Floresta”, contou Dalva. “Agora, discutir a chegada de internet nas comunidades é muito importante.”
Da formação à autonomia nos territórios
As experiências de quem já utiliza as soluções da Rede também tiveram destaque. Maria Reginalva Godinho, moradora da Reserva Tapajós-Arapiuns, no Pará, relatou como a Formação Agentes Comunitários de Energia ampliou sua autonomia e trouxe novos conhecimentos para sua comunidade.
“Ter um agente comunitário de energia dentro das comunidades traz autonomia para a nossa vida, para a nossa comunidade, para o nosso território”, afirmou. Ela também destacou a importância da conectividade para ampliar o acesso à telemedicina e aproximar serviços de saúde das populações extrativistas.
Maria também resumiu o sentido do encontro como um espaço de encontro entre diferentes formas de conhecimento. “Está se falando de conexão de uma rede, rede de saberes, rede do tradicional, rede científica, rede de conhecimentos. Aqui há uma troca do tradicional, do cultural, da ancestralidade, juntamente com os conhecimentos tecnológicos, que é muito importante para nossa vida.”
A saúde apareceu igualmente nos relatos de facilitadores comunitários. Marinei Martins, da comunidade Ajamuri, em Lago Grande, Santarém (PA), contou que a chegada da Conexão Saúde, sistema de telessaúde oferecido gratuitamente pela Rede, facilitou o acesso a consultas médicas para moradores de uma comunidade que possui unidade básica de saúde, mas não conta permanentemente com médicos.
“Na minha comunidade melhorou muito a conexão, principalmente na chegada da telemedicina para a comunidade, que a gente pode fazer consultas online. As pessoas não precisam mais sair de casa para fazer a consulta”, contou. Segundo Marinei, a comunidade possui uma unidade básica de saúde, mas não conta com médico, apenas enfermeiro e técnico de enfermagem. “Então, com isso, a telemedicina facilitou muito para os comunitários, para que eles pudessem se consultar sem precisar sair da sua casa.”
Para ela, participar do encontro também significou levar novos conhecimentos de volta ao território e fortalecer a participação das mulheres. “Nós mulheres precisamos nos empoderar mais ainda, precisamos colocar a nossa voz ainda mais”, afirmou.
Vivências nos territórios aproximam a Rede das comunidades
O segundo dia do encontro foi dedicado à vivência territorial, com visitas à comunidade de Piquiazal e ao Quilombo do Mel da Pedreira. A programação permitiu que participantes conhecessem de perto experiências locais, dialogassem com moradores e refletissem sobre os desafios e oportunidades relacionados à conectividade e às políticas públicas.
A presença de representantes comunitários de diferentes regiões também foi apontada como um dos principais resultados do encontro. Para Marinei, que participou representando sua região do Lago Grande, o momento permitiu reconhecer uma rede que já vinha sendo construída por meio das formações.

A dimensão política da conectividade também esteve presente nas discussões do encontro. Para Letícia Moraes, vice-presidenta do Conselho Nacional das Populações Extrativistas (CNS), a experiência da Rede precisa ser compreendida a partir das estratégias dos próprios movimentos e das potencialidades que a tecnologia pode oferecer para os territórios.
“Nós estamos refletindo profundamente todo o aprendizado que a Rede Conexão Povos da Floresta traz ao longo da sua execução, pensando também a perspectiva política dos movimentos para essa interação entre as ferramentas disponíveis, e a conectividade é uma delas”, afirmou.
Para Letícia, pensar em conectividade significativa significa ir além do acesso à internet e considerar como essa ferramenta pode contribuir para diferentes dimensões da vida comunitária. “É pensando a significância dessa conectividade e as potencialidades que elas podem trazer aos territórios, tanto na proteção do direito territorial quanto também da organização comunitária, do envolvimento da juventude, do envolvimento e do protagonismo das mulheres.”
A participação no encontro também proporcionou, segundo ela, uma experiência de aproximação com a história e a resistência do território que recebeu a programação. “É uma vivência muito importante estar hoje em um território sagrado, que é um território quilombola, um lugar de muita resistência, que nós vamos poder trazer o sentido da Conexão.”
Compromissos definem próximos passos
O encerramento do encontro foi marcado pela pactuação de uma agenda de compromissos organizada a partir dos diferentes grupos de trabalho da Rede. Entre as prioridades estão ampliar a formação de Agentes Comunitários de Energia, alcançar 2.100 facilitadores formados em 2026, fortalecer o Sabedoria Digital e ampliar o uso da Conexão Saúde nas comunidades conectadas.
Na proteção territorial, os participantes definiram como prioridades o fortalecimento do mapeamento comunitário e do uso do Tô no Mapa, além da articulação de informações fundiárias com instituições públicas. Na cultura, a meta é alcançar 200 eventos no calendário cultural até o fim de 2026 e apoiar as comunidades no registro de suas próprias histórias e memórias.
Também foram estabelecidos compromissos relacionados ao empreendedorismo, à segurança alimentar, à participação de mulheres e juventudes, à proteção de dados e à governança da própria Rede. Entre as propostas estão a realização de um Encontro de Juventudes, a ampliação da participação feminina nos espaços de decisão e o desenvolvimento de mecanismos de proteção contra o uso indevido de dados e conhecimentos tradicionais.
No campo da energia, a Rede pretende realizar mais três formações de Agentes Comunitários de Energia até o final de 2026 e avançar na regulamentação da iniciativa. A experiência também deverá ser sistematizada, com a perspectiva de alcançar 100 motores elétricos em 2027.
Outro marco do encontro foi a formalização do Acordo de Cooperação Técnica entre ANEEL, SENAI e Rede Conexão Povos da Floresta, fortalecendo a articulação institucional em torno da formação e da autonomia energética nos territórios.













