Foto: Reprodução / Dark Horse

A Polícia Civil de São Paulo investiga se recursos da prefeitura de São Paulo foram desviados para custear o filme “Dark Horse”, sobre a vida do ex-presidente Jair Bolsonaro.

Polícia deflagrou hoje a “Operação Wi-Fi”, que mira contrato de R$ 108 milhões da prefeitura com o ICB (Instituto Conhecer Brasil). A ONG é presidida por Karina Ferreira da Gama, dona da Go UP Entertaiment, que produziu o filme “Dark Horse”, sobre a trajetória de Jair Bolsonaro. O acordo prevê a instalação de 5 mil pontos públicos de Wi-Fi, em regiões periféricas da cidade.

Investigação apura se recursos do contrato foram desviados para a produtora do filme. O delegado responsável pela investigação pediu à Justiça que o Coaf (Conselho de Controle de Atividades Financeiras) faça análise de movimentações financeiras da ONG para apurar possível desvio de recursos para custear o filme Dark Horse. Ele ainda solicitou que esta parte do inquérito seja colocada em sigilo.

Para a polícia, há “consistentes suspeitas de confusão patrimonial” entre instituto e produtora. A informação consta no relatório do inquérito sobre o caso.

“Paralelamente ao desvio dos recursos municipais, as informações obtidas pela mídia apontam que a investigada Karina Ferreira da Gama, na qualidade de única sócia da empresa Go Up Entertainment, iniciou a produção cinematográfica do longa-metragem ‘Dark Horse’, gravado em inglês, com elenco e direção de Hollywood, e custo estimado entre R$ 8.000.000,00 e R$ 20.000.000,00, sem que a origem do financiamento privado tenha sido devidamente declarada ou identificada. Há consistentes suspeitas de confusão patrimonial e de que os recursos públicos do programa ‘WiFi Livre SP’ tenham sido desviados para custear as atividades de produção do referido filme, utilizando as contas das empresas subcontratadas e das demais organizações sociais geridas pela investigada para a lavagem dos valores desviados do erário de São Paulo.” disse o Delegado Antônio Carlos Munuera Silveira, titular da 2.ª DICCA, em petição enviada à Justiça.

Polícia suspeita que R$ 26 milhões pagos pela prefeitura à ONG podem ter ido para filme. De acordo com as investigações, o valor foi repassado sem efetiva prestação do serviço, o que pode evidenciar “desvio de finalidade na aplicação do dinheiro público municipal”. “Diante disso, o rastreamento do fluxo financeiro é o único meio capaz de descortinar a destinação final das verbas recebidas pelo Instituto Conhecer Brasil — ICB e repassadas de forma suspeita a empresas subcontratadas e às contas pessoais da investigada Karina Ferreira da Gama e de suas firmas individuais, como a Go Up Entertainment”, diz o delegado.

“A manutenção do fluxo financeiro sob segredo, sem o devido monitoramento e bloqueio oportuno, confere aos investigados a oportunidade contínua de pulverizar os recursos desviados do município de São Paulo para contas no exterior ou empresas de fachada. A investigada Karina Ferreira da Gama possui conexões comerciais no exterior, incluindo empresa registrada na Flórida (EUA) com o mesmo nome da produtora cinematográfica brasileira, indicando elevado risco de evasão de divisas e ocultação patrimonial definitiva.”

“A demora na obtenção de informações técnicas sobre as movimentações suspeitas pode frustrar a recuperação dos valores subtraídos do erário municipal e impedir a colheita tempestiva de provas de lavagem de capitais. Portanto, a obtenção do Relatório de Inteligência Financeira (RIF) pelo COAF é medida adequada, necessária e estritamente proporcional para estancar a lesão ao patrimônio público e assegurar o resultado útil da investigação criminal.” afirmou o Delegado Antônio Carlos Munuera Silveira, titular da 2.ª DICCA, em petição enviada à Justiça.

Karina Gama, dona da produtora de ‘Dark Horse’, filme sobre o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) – Foto: Reprodução / Instagram

“Dark Horse” está no centro de polêmica envolvendo o pré-candidato à Presidência Flávio Bolsonaro (PL-RJ). Áudios revelados pelo Intercept Brasil, mostram o senador cobrando dinheiro ao então banqueiro Daniel Vorcaro, dono do Master, para custear o filme. Vorcaro teria combinado R$ 134 milhões em repasses para a obra, dos quais R$ 61 milhões foram pagos.

Roteiro do “Dark Horse” é assinado pelo deputado Mário Frias (PL-SP), que destinou R$ 2 milhões em emendas ao ICB. O repasse é alvo de apuração do STF (Supremo Tribunal Federal), em ação sob relatoria do ministro Flávio Dino que investiga possíveis irregularidades em emendas parlamentares. A suspeita é de que o dinheiro tenha sido usado para custear o filme.

Irregularidades em contrato

O instituto, a Go UP, endereços ligados a Karina Ferreira da Gama e a SMIT (Secretaria Municipal de Inovação e Tecnologia) estão entre os alvos da operação. A ação cumpre oito mandados de busca e apreensão autorizados pela 1.ª Vara Regional das Garantias.

Investigações apontam que aditivos assinados pela prefeitura elevaram valor do contrato para R$ 157,1 milhões. Deste valor, pelo menos R$ 26 milhões teriam sido pagos sem a efetiva prestação do serviço.

Operação mira suspeita de “graves irregularidades” no contrato 01/SMIT/2024, firmado entre o ICB e a Secretaria Municipal de Inovação e Tecnologia. O acordo prevê a instalação de 5 mil pontos públicos de Wi-Fi em comunidades da periferia paulistana, como parte do programa “Wi-Fi Livre”, da prefeitura.

Há suspeitas de direcionamento na licitação, que teve apenas participação do ICB. Segundo as investigações, a ONG não tinha “histórico de atuação, experiência anterior ou capacidade técnica no setor de telecomunicações, limitando seu histórico operacional a feiras de livros e eventos de natureza literária ou religiosa”.

Prefeitura de SP disse que “repudia veementemente ilações de desvios de recursos públicos”. “O contrato do Instituto Conhecer Brasil seguiu rigorosamente os princípios da legalidade, transparência e economicidade”, afirmou a gestão em nota. A prefeitura informou ainda que colabora com as investigações e está à disposição das autoridades, “tendo já prestado informações” (leia a íntegra da nota no fim do texto).

Leia íntegra da nota da prefeitura

A Prefeitura de São Paulo informa que colabora com investigações em andamento e segue à disposição das autoridades, tendo já prestado informações. Todo o material requisitado na manhã desta segunda-feira já havia sido disponibilizado às autoridades e são, desde sempre, de acesso público, por meio da prestação de contas do município. A administração ressalta que o programa funciona normalmente na cidade e pode ser acompanhado em tempo real no link https://wifilivrecomunidades.org/sp. Por volta das 9h desta segunda-feira, dos 3,2 mil pontos contratados pela prefeitura, apenas 52 estavam off-line e passavam por manutenção. Não houve pagamento por parte da administração para 5 mil pontos. O aditivo em questão é exclusivamente para manutenção dos 3,2 mil pontos já instalados nas comunidades periféricas da cidade.

A prefeitura reforça que toda a prestação de contas, com documentos, notas fiscais, contratos e outras informações, está no sistema SEI, que é público. O processo passou também por acompanhamento do Tribunal de Contas do Município (TCM). A Prefeitura repudia veementemente ilações de desvios de recursos públicos, uma vez que o contrato do Instituto Conhecer Brasil seguiu rigorosamente os princípios da legalidade, transparência e economicidade.

Vale lembrar que o chamamento público, aberto por 30 dias para qualquer entidade interessada, ocorreu em 2024, quando não havia sequer produção do filme mencionado, e o processo cumpriu todas as exigências legais. Para 2026, o custo estimado na parceria com o instituto corresponde a R$ 1.280,80 por ponto/mês, significativamente menor do que as propostas recebidas em 2022, de R$ 2.026,26 por ponto/mês e R$ 5.092,14 por ponto/mês.

*Com informações de Uol