Às vésperas de completar 18 anos, Sherli se conectou pelo celular para dar sua primeira entrevista virtual. Apesar de algumas oscilações na internet, a conversa fluiu muito bem. Sherli já fala português como uma manauara, quase não se nota o sotaque do espanhol venezuelano. Ela se expressa com espontaneidade, não à toa foi escolhida como cerimonialista da formatura da primeira turma do projeto Chicas Digitais. Realizada pelo Instituto Hermanitos em parceria com a Agência da ONU para Refugiados (ACNUR), a iniciativa promove uma imersão em informática, programação e inteligência artificial para jovens refugiadas e migrantes.
“Nunca imaginei atuar na área de tecnologia. Achava que era um curso de informática básica e como eu estava no terceiro ano do ensino médio, quis fazer para poder ingressar no mercado de trabalho”, conta Sherli.
A primeira turma do projeto reuniu 18 jovens venezuelanas, com idades entre 16 e 20 anos. Por dois meses, entre outubro e dezembro de 2025, elas se reuniam todas as manhãs para estudar tecnologia. Sherli precisava se deslocar por mais ou menos uma hora até o local das aulas e conciliou com o final do ano letivo, no contraturno escolar. “Era um desafio todos os dias. Mas valeu a pena”.
A ideia de compor uma turma só de mulheres vem como proposta de mitigação para desigualdades de gênero em dois cenários: a inclusão de pessoas deslocadas à força e o mercado de tecnologia. Mulheres e meninas deslocadas à força enfrentam discriminações interseccionais e maior risco de violência baseada em gênero, o que limita ainda mais o acesso a direitos, justiça, segurança e serviços. Dados da pesquisa do Programa Conjunto Moverse evidenciam que no Brasil apenas 32% das pessoas interiorizadas com vaga de emprego são mulheres.
“Além das inúmeras barreiras que mulheres e meninas refugiadas enfrentam no deslocamento, há ainda outras tantas vividas no processo de inclusão no país de acolhida. Os dados sobre empregabilidade de refugiadas no Brasil mostram isso. Elas possuem uma escolaridade média maior que a dos homens, mas isso não reflete em melhores oportunidades de emprego. Por isso, projetos voltados a jovens mulheres são fundamentais para diminuir as desigualdades”, explica Juliana Serra, chefe do escritório do ACNUR em Manaus.
Estereótipos e normas sociais também afastam meninas das carreiras tecnológicas desde cedo. Segundo o Relatório Global de Monitoramento da Educação 2024 “Tecnologia nos termos delas”, da Unesco, mulheres representam 35% das pessoas formadas em ciência, tecnologia, engenharia e matemática no ensino superior. E ocupam apenas 25% dos empregos em ciência, engenharia e tecnologia da informação.
“Gostei do fato de que era um curso só para meninas. Era um ambiente bem seguro. As professoras são muito qualificadas e gostam de ensinar. Na área de TI é difícil encontrar mulheres, é visto como um curso mais voltado aos homens. Era muito confortável tirar dúvidas, estudar com tranquilidade e fazer amizades”, compartilha Sherli.
Em complemento ao conteúdo técnico, foram oferecidas também sessões sobre segurança digital para meninas, a fim de trabalhar também a proteção à violência online.














