Soldado brasileiro tenta deixar a Ucrânia após relatos de agressões - Foto: Arquivo pessoal

O mineiro Israel*, 36, deixou o Brasil para realizar o sonho de atuar na área militar como soldado na Ucrânia. Mas, ao chegar ao país em guerra contra a Rússia, diz que foi espancado e submetido a condições degradantes, enfrentou pressão psicológica por parte de outros soldados e testemunhou amigos sendo torturados.

Israel faz parte de um grupo de brasileiros que relatou arrependimento por servir ao exército ucraniano. Eles tentam deixar a Ucrânia após terem salários atrasados e passaportes retidos.

‘Diziam que éramos fracos’

“Se a gente não fizesse o que os comandantes queriam, éramos agredidos”, diz Israel, que tenta deixar a capital Kiev. Segundo ele, militares da Ucrânia afirmavam aos brasileiros que tinham o contato de familiares e que poderiam acioná-los caso não realizassem as tarefas impostas. “Todo santo dia a gente sofria pressão psicológica, eles diziam que éramos fracos.”

“Éramos acordados com pontapés e armas na cabeça”, conta Israel. O soldado afirma que presenciou colegas sendo espancados por militares que comandavam o grupo. “Eu também cheguei a ser espancado algumas vezes”, diz ele. “Foi um inferno o BZVP (sigla para Treinamento Militar Geral Básico), o programa de formação para recrutas das forças armadas da Ucrânia.” Israel chegou em setembro de 2025 na Ucrânia.

O treinamento, diz, ocorria em uma região de floresta, próximo à fronteira da Ucrânia com a Polônia. O grupo foi enviado para a cidade de Rivne, no noroeste da Ucrânia, a cerca de 200 quilômetros da Polônia. “A comida era precária e vencida. Se eu quisesse comer bem, tinha de roubar, emagreci 8 quilos.” Segundo o brasileiro, as camas eram sujas e, para tomar banho, era necessário pegar lenha nas áreas externas das tendas.

“Peguei alergias, os banhos eram semanais, tratavam a gente que nem bicho.” afirmou Israel.

Ele e outros brasileiros contam que foram recrutados pela empresa brasileira Advanced Company Group. A unidade pertence ao grupo internacional Revanche Tatical Group, ligado ao serviço de inteligência ucraniano (GUR). Procurada por email, Instagram e WhatsApp, a empresa não respondeu às tentativas de contato.

Segundo ele, não era permitido falar com a família pelo celular. Os aparelhos eram confiscados e liberados uma vez por semana por uma hora. “Meu pai sofreu um infarto e eu soube uma semana depois”, conta. “Só podíamos usar o celular domingo à noite por uma hora.” O soldado relata que os comandantes mandavam os soldados realizarem tarefas em troca do celular.

“Eles diziam ‘não estou nem aí se sua mãe morrer'”

Ele afirma ter presenciado a desistência de colegas. “O sentimento de frustração já tinha tomado conta da gente.” Israel conta que em momentos de descanso era comum serem retirados e levados para as trincheiras. “Não podíamos pensar em fazer algo mais organizado como uma rebelião porque seria considerado crime”, afirma. “A qualquer sinal de rebelião, falavam que iam nos prender, cercavam a gente com armas.”

“Achava que ia enfrentar um treinamento, não que fosse passar por isso. Larguei minha família, meu país para não ter o mínimo de dignidade. O treinamento é duro mesmo, mas aquilo era só humilhação”

‘Sonho foi por água abaixo’

Israel diz que a vontade de atuar como militar vem da infância. Mas os pais não tiveram condições de bancar os estudos dele em uma escola militar. Então, ele passou a fazer bicos na segurança privada.

A chance de viver uma experiência militar veio por meio de uma promessa nas redes sociais. “Vi uma publicidade no Instagram sobre quem queria ser voluntário na Ucrânia”, lembra. Ele entrou em contato com a Advanced e foi aprovado por meio de uma videoconferência. Antes de chegar à Ucrânia, diz ter passado pela Turquia e pela Moldávia. “Viajei sozinho, fiz meu corre.”

Sem passaporte nem salários

Ao chegar a Kiev, afirma que ficou sem o passaporte. Ele conta que o grupo teve de entregar o passaporte para a equipe da Revanche tirar uma cópia e fazer uma espécie de registro, mas o documento não voltou. “Fiquei de setembro a janeiro sem passaporte”, diz Israel, que classifica o período como uma “prisão”.

Israel relata que se alistou para trabalhar na linha de frente, mas não recebeu os salários prometidos. “A promessa era de pagarem 45 mil grívnias, o que equivale a R$ 5,5 mil por mês.” Ele fala que só conseguiu assinar em janeiro documentos de banco para receber o salário e que chegou a pedir dinheiro emprestado a colegas. “Escondi da minha mãe até o último momento, mas agora ela já sabe.”

Em dezembro, avisou o batalhão que o recrutou que queria deixar de servir o país. “Eles achavam que todo mundo tinha de aguentar”, diz. “Fizeram muita pressão psicológica com ameaças de que teríamos de pagar multa de R$ 2.000, trabalhar em obras na Ucrânia, mas àquela altura não tinha mais medo de nada.” Em janeiro, conseguiu deixar o batalhão, mas ainda sob gerência da Legião Internacional, braço das forças armadas da Ucrânia. Depois, seguiu para a base da Revanche em Kiev.

Após saber de um espancamento na base da Revanche em Kiev, Israel não quis permanecer na unidade. Ele decidiu aguardar a liberação das forças armadas ucranianas para deixar o país em um hostel. Para se hospedar, contou com ajuda financeira da família e da Embaixada do Brasil na Ucrânia —que, segundo ele, prestou auxílio financeiro por cinco dias. Segundo ele, o valor para a hospedagem pago pela Embaixada era de R$ 30 por dia. O Itamaraty não confirmou a informação à reportagem.

Agora, com a carta de liberação em mãos, Israel deve se mudar para outro país. “Bate uma tristeza porque queríamos ter nosso nome escrito aqui. Foram muitos sonhos destruídos, uma frustração para o resto da minha vida.”

“Nunca mais vou querer passar por essa experiência.”

O que dizem as embaixadas

Itamaraty alertou sobre a participação de brasileiros em conflitos armados em outros países. O Ministério das Relações Exteriores citou nota em que alerta para riscos de alistamento voluntário de brasileiros em forças armadas estrangeiras.

Pasta recomendou que “convites ou ofertas de trabalho ou de participação em exércitos estrangeiros sejam recusadas”. Segundo o Ministério, houve aumento nos casos de brasileiros que perdem a vida e atravessam dificuldades para, uma vez alistados, interromper a participação nos exércitos combatentes.

Assistência pode ser limitada, diz Itamaraty. “A assistência consular pode ser severamente limitada pelos termos dos contratos assinados entre alistados e forças armadas de terceiros países”, disse em nota. “Não há obrigatoriedade por parte do poder público para o pagamento de passagens ou custeio de retorno de cidadãos do exterior.”

Embaixada da Ucrânia no Brasil disse que “apenas informa famílias de cidadãos brasileiros falecidos ou desaparecidos” que defenderam o país. Segundo a embaixada, “qualquer cidadão brasileiro que tenha ingressado nas forças armadas daquele país tem os mesmos direitos que um cidadão ucraniano”.

*O nome foi trocado a pedido do entrevistado para preservar a identidade dele…

*Com informações de Uol