Soldados da Dinamarca em exercício militar na Groenlândia - Foto: Simon Elbeck / AFP

A investida recente de Donald Trump em tomar o controle da Groenlândia pode representar uma tendência geopolítica em curso com influência direta das mudanças climáticas. Com o derretimento acelerado no Ártico, possíveis novas rotas pelo hemisfério norte e acesso mais facilitado a minerais críticos, especialistas veem a possibilidade de “guerras climáticas” no horizonte.

O que seriam as “guerras climáticas”?

Degelo acelerado no Ártico pode desbloquear barreiras para exploração e anexação. O Ártico aqueceu pelo menos duas vezes mais do que o restante do mundo nos últimos quarenta e cinco anos, apontam pesquisas, o que reflete diretamente no derretimento do gelo no local. Além dos Estados Unidos, há também interesse anunciado da Rússia na região.

Não são apenas os minerais críticos: rotas comerciais, um caminho direto para a Rússia e bases para o “Domo de Ouro” entram na conta dos EUA. Na avaliação de Richard Nugee, um oficial aposentado do Exército Britânico, a implantação do sistema de segurança de Trump depende de bases americanas espalhadas não só na Groenlândia, mas também no Canadá e provavelmente na Islândia também.

O Domo de Ouro funciona como um escudo antimísseis de múltiplas camadas. É projetado para detectar, rastrear e interceptar mísseis antes que atinjam o território norte-americano. Trump argumenta que a localização da Groenlândia é essencial para o funcionamento pleno do projeto.

Apesar do discurso negacionista do clima, Trump aposta no aquecimento do Ártico para explorá-lo. Para Jakob Dreyer, pesquisador de Ciência Política da Universidade de Copenhagen, Trump e seus estrategistas olham para como o mundo pode parecer em 30 ou 40 anos. A imprevisibilidade desse cenário devido ao ritmo acelerado das mudanças climáticas é fator de influência para a ação.

“Não sabemos se será na década de 2030 ou na década de 2040 que o Oceano Ártico ficará sem gelo marinho. Também não sabemos exatamente quando será viável economicamente a mineração na Groenlândia, porque isso depende dos mercados globais, das mudanças climáticas e da organização política do país.” afirmou Jakob Dreyer, pesquisador de Ciência Política da Universidade de Copenhagen.

Momento é de mais especulação e menos guerra imediata na Groenlândia. Os especialistas, que falaram durante um briefing de imprensa organizado pelo Conselho Global de Comunicação Estratégica na sexta-feira (23), destacam que mesmo o ritmo acelerado do degelo no Ártico não é o suficiente para facilitar a exploração de recursos minerais no país no curto prazo, já que falta infraestrutura na Groenlândia para uma mineração de grandes dimensões. Isso não impede, no entanto, movimentos antecipados para influenciar região, como os de Trump.

Clima era de medo no Fórum Econômico Mundial. Com o acordo entre membros da Otan e os Estados Unidos sobre a Groenlândia – ainda a ser detalhado pelas autoridades -, a ideia de um conflito direto pela ilha, que é uma região autônoma da Dinamarca, arrefeceu durante a semana. No entanto, a cientista Gail Whiteman, da Universidade de Exeter, no Reino Unido, afirmou que nunca viu “tanto medo” entre os presentes no encontro de Davos.

Imagem: Reprodução / TV

Para além dos minerais, água desponta como outro fator de conflitos

Impactos das mudanças climáticas na geopolítica já são assunto para essa geração. Laurie Laybourn, diretor-executivo da Iniciativa Estratégica sobre Riscos Climáticos, afirma que os impactos climáticos na geopolítica podem ser exemplificados não só pelo caso dos EUA com a Groenlândia, mas também por conflitos recentes no Paquistão e Índia devido à água na região da Caxemira – que gerou ataques entre os países em 2025.

“Durante muito tempo, houve uma suposição de que esses impactos [climáticos] são realmente para o futuro e para nossos netos. Mas não são. Eles estão redesenhando o mapa da geopolítica globalmente. […] Os conflitos futuros já estão sendo desencadeados pelos impactos climáticos, e um campo fundamental disso é a água. Essa é uma mudança física, mas também é um impacto nas sociedades, já que as desestabiliza.” disse Laurie Laybourn, diretor-executivo da Iniciativa Estratégica sobre Riscos Climáticos

Para os europeus (e o resto do mundo), isso também significa depender menos dos EUA para questões de segurança. “Não podemos basear nossa segurança nacional nos Estados Unidos como fizemos no passado”, afirmou Jakob Dreyer, da Universidade de Copenhagen.

*Com informações de Uol