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Quase três anos após a chegada da ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro ao comando do PL Mulher, em março de 2023, o partido se tornou a 2ª legenda entre as maiores siglas do Congresso que mais gasta com sua ala feminina —atrás apenas do Republicanos. Os dados foram retirados da prestação de contas dos partidos ao TSE (Tribunal Superior Eleitoral).

Orçamento do PL Mulher saltou de 0,5% dos gastos do partido em 2022 para 8% em 2025. No ano passado, a sigla gastou R$ 14 milhões com sua ala feminina, criada para “aumentar o número de filiadas, identificar candidatas com potencial de eleição e apoiá-las para que tenham sucesso”, segundo site oficial.

“Do Norte ao sul do nosso país, existem mulheres incríveis que encontraram no amor ou na fé o propósito de ajudar, servir, educar, ensinar e fazer acontecer” afirmou Michelle Bolsonaro, presidente nacional do PL Mulher, em vídeo nas redes sociais.

Para especialistas, ex-primeira-dama aumentou a repercussão do PL Mulher. Mas não contribuiu tanto para ampliar o debate sobre mulheres dentro do partido. Cientistas políticos afirmaram também que a boa penetração de Michelle nos eleitorados feminino e evangélico pode ser decisiva nas eleições de 2026.

“Ela leva a cabo uma estratégia de ampliação de um eleitorado original do bolsonarismo –o que, numa eleição muito acirrada, como a de 2026, pode ser fundamental” disse Mayra Goulart, doutora em ciência política pela UERJ e coordenadora do LAPPCOM (Laboratório de Partidos, Eleições e Política Comparada) da UFRJ.

Ultrapassado pelo PL Mulher, PSD Mulher representou 6% das despesas da sigla em 2025, com R$ 4,3 milhões em gastos. O percentual é igual ao do movimento Mulheres Progressistas, do PP. Em 2024, alas femininas representavam 1% dos gastos de PL e PSD. Diferentemente do PL, o PSD Mulher é menos conservador.

“Nossa agenda é composta de compromissos inadiáveis: a continuidade da luta pela igualdade de oportunidades e de salários, nunca menos do que ganha um homem em cargo ou função similar; uma solução para a dupla jornada de trabalho e um único salário; o combate sem tréguas para punir exemplarmente a violência contra a mulher; contra o assédio sexual, contra o feminicídio, contra a Pedofilia, Mães Adolescentes, Educação Igualitária, Aborto, Acesso irrestrito à Mamografia, A Mulher da Diversidade, A Mulher Idosa entre tantos outros temas de fundamental importância” afirmou o PSD Mulher, em texto no site oficial do grupo.

Comandado pela senadora Damares Alves, movimento Mulheres Republicanas respondeu por 8,5% das despesas do partido em 2025. No total, os gastos da ala feminina somaram R$ 4,6 milhões. O combate à violência contra a mulher está entre as bandeiras do grupo, que tem mais de 280 mil afiliadas em 4.973 cidades.

O ex-presidente Jair Bolsonaro e a ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro em evento – Foto: Carolina Antunes / PR

Partido diz investir de “forma estruturada e transparente”. Em nota, o Mulheres Republicanas afirmou que “ações permanentes de formação, capacitação e apoio institucional às mulheres” são prioridade do movimento, que visa desenvolver “programas consistentes e contínuos voltados à participação feminina”.

Levantamento considerou gastos de diretórios nacionais de sete partidos com maiores bancadas em Brasília. Além dos citados, MDB, PT e União Brasil tiveram as despesas analisadas. Segundo a Justiça Eleitoral, as legendas têm até 30 de junho para encaminhar toda documentação de prestação de contas relativa a 2025.

Gastos caem em anos eleitorais

Percentual de despesas de alas femininas diminui em anos de eleição. Enquanto o gasto médio dos sete grupos analisados representou, em média, 6% do total das despesas dos partidos em 2025, o indicador foi de 0,8% em 2024, ano de eleições municipais. Para especialista, no entanto, segmentos de mulheres têm potencial de assumir maior protagonismo nas disputas.

“Essas alas podem desempenhar um papel importante nas eleições de 2026 se fiscalizarem aquilo que a lei manda, que é a destinação devida por parte dos partidos às candidaturas femininas” disse Marco Antônio Teixeira, doutor em ciências sociais pela PUC-SP e pesquisador do Centro de Estudos de Administração Pública e Governo da Fundação Getulio Vargas.

Regra determina que pelo menos 5% dos gastos dos partidos devem ser destinados à “criação e manutenção de programas de promoção e difusão da participação política das mulheres”. Segundo artigo 44 da Lei dos Partidos Políticos, gestão dessas iniciativas fica a cargo da Secretaria da Mulher de cada agremiação.

Eleitorado feminino representa desafio para extrema direita, afirma cientista política. Segundo Mayra, essas siglas tendem receber mais votos de homens por terem programas que defendem “valores patriarcais, nos quais a mulher tem um papel simbólico e secundário, ligado a funções de cuidado”.

“Eles abrem esses núcleos para atrair o voto feminino, não a partir de uma agenda propriamente feminista, mas uma agenda que tem a ver com a defesa do papel tradicional da mulher na sociedade” afirmou Mayra Goulart, doutora em ciência política pela UERJ e coordenadora do LAPPCOM (Laboratório de Partidos, Eleições e Política Comparada) da UFRJ.

Nesse contexto, Michelle surge como figura vista como ideal, diz especialista. Mayra explica que a ex-primeira-dama se apresenta tanto alinhada a valores conservadores quanto com capacidade de gerar identificação e ser puxadora de votos, caso consiga vencer a resistência e se afirmar como candidata.

Ex-primeira-dama aparece como possível candidata à presidência em 2026. Apesar de o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) ter afirmado em carta no fim do ano passado que seu filho Flávio é seu nome para o cargo neste ano, Michelle aparece bem posicionada em sondagens nas quais seu nome é colocado como opção.

*Com informações de Uol